Andréa Vergani
QUANDO A FAMÍLIA DEIXA DE SER VALOR PARA SE TORNAR DISCURSO ELEITOREIRO
A palavra família nunca esteve tão em alta.
Em ano eleitoral, então, ela se multiplica. Está nos slogans, nos discursos inflamados, nas biografias das redes sociais e nas fotos cuidadosamente produzidas para o feed. Nunca se viu tanta gente reivindicando para si a defesa da família. Nunca se viu tanto político se autointitular guardião de valores familiares.
E é justamente aí que mora a contradição.
Porque, na prática, o que se vê é um abismo entre o discurso e as ações. A palavra família virou um rótulo conveniente — bonito de dizer, fácil de vender e poderoso para mobilizar —, mas vazio quando não é sustentado por políticas públicas, decisões coerentes e compromisso real com a vida das pessoas.
Defender a família não é deveria ser posar para fotos cuidadosamente orquestradas.
Não deveria ser sobre repetir palavras-chave em campanhas.
Defender a família é garantir escola pública de qualidade, educação integral e inclusiva.
É investir em saúde, em saúde mental, em atenção à infância e à maternidade.
É proteger mulheres e crianças da violência dentro de casa — porque a casa, para muitas, ainda é o lugar mais perigoso.
É olhar para mães solo, famílias atípicas, famílias chefiadas por avós, por mulheres, por pessoas que sustentam sozinhas o cuidado e o afeto.
É assegurar renda, trabalho digno, moradia, creche, tempo de cuidado e políticas que permitam que as famílias existam com dignidade.
É debater o trabalho do cuidado, licença parentalidade, licença amamentação, mercado de trabalho e parentalidade.
Quando se corta orçamento da educação, da assistência social, da saúde, quando se desmontam políticas públicas voltadas à infância, às mulheres e às pessoas idosas, não se está defendendo a família — está-se apenas usando o nome dela.
Família não é discurso.
Família é compromisso cotidiano.
Família é política pública.
Família é responsabilidade.
Em 2026, o que precisamos não é de mais palavras vazias, nem de mais perfis cheios de slogans. Precisamos de coerência. Precisamos de ações. Precisamos de escolhas políticas que coloquem as pessoas no centro e não apenas o marketing eleitoral.
Que a família volte a ser valor — e deixe de ser apenas discurso.
Que 2026 seja um ano de menos discurso e mais ação.



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