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Florianópolis,20/10/2026

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Kelly Corrêa

QUER MAIS SEXO? DIVIDAM A LOUÇA!

A sobrecarga doméstica, a diferença de responsabilidades e o impacto na vida sexual: o que os casais precisam compreender para recuperar a conexão, o desejo e o prazer


QUER MAIS SEXO? DIVIDAM A LOUÇA!

Um chega ao fim do dia querendo carinho, proximidade e sexo. O outro só consegue pensar em descansar. Em alguns relacionamentos, essa diferença se transforma em frustração, cobranças e afastamento. Em outros, o assunto sequer é conversado.

Mas e se o problema não estiver na falta de amor, e sim na maneira como a vida a dois está organizada?

Segundo dados do IBGE referentes a 2022, as mulheres dedicavam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e aos cuidados de pessoas, enquanto os homens dedicavam 11,7 horas. São quase dez horas de diferença por semana.

Esse desequilíbrio merece atenção porque a rotina não termina quando o expediente acaba. Ela continua nas tarefas da casa, na organização da família e na carga mental de quem precisa lembrar, planejar e antecipar as necessidades de todos.

Quando essa responsabilidade fica concentrada em uma pessoa, o relacionamento pode sentir os efeitos — inclusive na intimidade sexual.

O desejo também sente o peso da rotina

Como terapeuta sexual, considero fundamental olhar para além do quarto quando um casal enfrenta dificuldades na vida íntima.

A diminuição do desejo pode envolver fatores hormonais, físicos, emocionais e relacionais. O estresse, o cansaço e a sobrecarga cotidiana também podem interferir na disponibilidade para o prazer.

Um estudo publicado em 2022 na revista Archives of Sexual Behavior encontrou uma associação entre a percepção de assumir mais trabalho doméstico do que o parceiro e níveis mais baixos de desejo sexual pelo companheiro entre mulheres em relacionamentos heterossexuais.

Isso não significa que toda pessoa sobrecarregada perderá o desejo, nem que dividir as tarefas resolverá automaticamente os problemas sexuais. Significa que precisamos considerar o contexto em que a intimidade acontece.

Quem passa o dia resolvendo problemas, administrando responsabilidades e cuidando de outras pessoas pode encontrar dificuldade para desacelerar e se conectar com as próprias sensações.

E essa realidade não é exclusiva das mulheres. Qualquer pessoa submetida a estresse intenso, exaustão ou pressão emocional pode sentir os efeitos na sexualidade. A questão é que os dados brasileiros revelam uma desigualdade de responsabilidades que precisa ser enfrentada.

O desejo não vive isolado da rotina. Ele também é influenciado pela maneira como nos sentimos, pela qualidade da relação e pelo espaço que temos para nós mesmos.

Parceria não é ajudar. É assumir responsabilidades.

Em muitos relacionamentos, uma pessoa executa as tarefas, enquanto a outra espera instruções. Quem organiza a casa precisa perceber o que falta, pedir ajuda, explicar o que fazer e ainda acompanhar se foi feito.

Isso também cansa.

Uma divisão equilibrada exige mais do que distribuir atividades: exige compartilhar a responsabilidade de perceber, planejar e executar o que a vida cotidiana demanda.

E aqui está uma reflexão importante para os casais: talvez um dos gestos mais significativos de amor seja perceber a sobrecarga do outro e agir antes que ela se transforme em exaustão ou ressentimento.

Não se trata de lavar a louça para conseguir sexo, nem de transformar o cuidado em moeda de troca. Trata-se de compreender que a vida construída a dois precisa ser sustentada pelos dois.

Quando existe parceria real, há mais espaço para o descanso, para o diálogo e para a conexão.

A intimidade começa muito antes de tirar a roupa

Muitos casais procuram maneiras de recuperar o desejo sem observar o que acontece fora do quarto.

Como vocês conversam? Existe carinho sem expectativa de sexo? Há espaço para expressar frustrações? Os dois se sentem valorizados? As responsabilidades estão distribuídas de maneira justa? Cada um consegue comunicar suas necessidades sem medo de julgamento?

O desejo não funciona como um interruptor. Para algumas pessoas, ele surge espontaneamente; para outras, aparece ao longo de uma aproximação prazerosa, quando há conexão, estímulo e disponibilidade.

Por isso, nem toda diferença na frequência sexual significa falta de amor ou atração. Às vezes, o casal precisa compreender melhor seu próprio funcionamento, reduzir pressões e encontrar formas de se aproximar que respeitem o ritmo de ambos.

Uma vida sexual satisfatória não se constrói pela obrigação de fazer sexo, mas pela possibilidade de vivê-lo com liberdade, consentimento e prazer compartilhado.

Carinho, conversas, humor, admiração e pequenos gestos de cuidado podem fortalecer a intimidade. O importante é que não sejam utilizados como estratégias para obter sexo, mas como expressões genuínas de afeto.

Quando procurar uma terapeuta sexual?

Há casais que se amam, mas já não conseguem conversar sobre sexo sem discutir. Outros enfrentam diferenças de desejo, dificuldades de excitação ou orgasmo, inseguranças, frustrações ou a sensação de que a rotina tomou o lugar da intimidade.

Há também quem esteja bem e queira aprofundar a conexão, conhecer melhor a própria sexualidade e descobrir novas possibilidades de prazer.

A terapia sexual pode ajudar esses casais a compreender o que está acontecendo, identificar padrões que dificultam a conexão e construir caminhos compatíveis com suas necessidades.

Em meu trabalho, oriento os parceiros a desenvolver uma comunicação mais aberta sobre desejo, limites, expectativas e preferências; compreender fatores que podem interferir na vida sexual; e encontrar maneiras de fortalecer a conexão emocional e física.

Também trabalhamos a dinâmica do relacionamento, incluindo a divisão de responsabilidades, os conflitos recorrentes e as expectativas que cada pessoa leva para a vida a dois.

Com mais de 20 anos de experiência na área da sexualidade, acredito que olhar para o casal como um todo é essencial. Não basta investigar o que acontece durante o sexo: precisamos compreender o que cada pessoa sente, como se relaciona e quais condições favorecem uma intimidade saudável.

A terapia não oferece fórmulas mágicas. Oferece acolhimento, orientação e ferramentas para que o casal compreenda suas dificuldades e construa mudanças possíveis.

Buscar ajuda não significa que o relacionamento fracassou. Significa que existe disposição para cuidar dele.

O próximo passo é de vocês

Talvez vocês estejam vivendo uma fase de cansaço. Talvez tenham deixado as conversas importantes para depois, acumulado ressentimentos ou se afastado sem perceber.

Não é necessário esperar que a situação se torne insustentável para buscar orientação.

Como terapeuta sexual, meu convite é para que vocês olhem para a relação com mais consciência, compreendam o que interfere no desejo e descubram novas maneiras de construir uma intimidade prazerosa, respeitosa e satisfatória para ambos.

Agende uma consulta comigo e vamos trabalhar juntos para fortalecer a parceria, recuperar a conexão e levar a intimidade de vocês para outro nível.

Porque uma relação saudável não depende de uma pessoa fazer tudo para que a outra esteja bem. Depende de duas pessoas dispostas a cuidar de si, uma da outra e da vida que compartilham.

E deixo uma pergunta para refletirmos:

Vocês estão dividindo apenas a rotina ou também estão criando, juntos, espaço para o desejo, o prazer e a intimidade?


⸻


Kelly Corrêa é sexóloga, terapeuta sexual, consultora comportamental e autora do livro “Quem Comanda Seu Desejo? Muito Prazer”. Atua há mais de 20 anos na área da sexualidade, orientando mulheres e casais na compreensão do desejo, no fortalecimento da intimidade e na construção de uma relação mais saudável com o corpo e o prazer.



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