Kelly Corrêa
Menopausa: quando a vida sexual do casal muda — e ninguém sabe como falar sobre isso
As queixas sexuais mais comuns nessa fase não se resumem à falta de desejo. Dor, dificuldade de excitação, mudanças no orgasmo, medo da penetração, desencontro entre os parceiros e afastamento da intimidade podem transformar silenciosamente a vida sexual. A boa notícia é que existe tratamento — e ele precisa olhar para o corpo, para a mente e para a relação.
A pergunta é simples: o que acontece com a vida sexual da mulher e do casal durante a menopausa?
A resposta também precisa ser simples: muita coisa pode mudar — e cada mulher vive esse processo de uma maneira.
As principais queixas sexuais estão concentradas em quatro áreas: desejo, excitação, orgasmo e dor.
“Eu não tenho mais vontade.”
A diminuição do desejo é uma das queixas mais comuns.
Mas nem sempre significa simplesmente “falta de hormônio”. Cansaço, noites maldormidas, estresse, ansiedade, autoestima, medicamentos e problemas na relação também podem diminuir o interesse sexual.
“Eu quero, mas meu corpo não responde.”
A mulher pode continuar tendo vontade, mas perceber que demora mais para ficar excitada, que precisa de mais estímulo ou que a lubrificação diminuiu.
É uma situação que pode gerar insegurança: “Será que não sinto mais atração pelo meu parceiro?”
Nem sempre.
“Sexo começou a doer.”
Essa é uma queixa muito importante.
Com a queda do estrogênio, a vagina pode ficar mais seca, fina e menos elástica. A relação pode provocar ardência, desconforto ou dor.
E quando sexo dói, o comportamento muda.
A mulher começa a evitar a relação. Pode evitar também carícias, aproximações e situações que imagina que terminarão em sexo.
A dor pode acabar levando à distância.
“Não consigo mais chegar ao orgasmo como antes.”
Algumas mulheres percebem que precisam de mais tempo ou de estímulos diferentes para chegar ao orgasmo. Outras sentem mudanças na intensidade ou na frequência.
Mas envelhecer não significa necessariamente deixar de ter prazer.
Uma pesquisa divulgada pela The Menopause Society em 2025 encontrou que orgasmo e satisfação sexual não necessariamente diminuem com a idade, embora outros sintomas, como dor, irritação e ressecamento, possam interferir na vida sexual.
E o casal?
É aqui que muitas histórias começam a ficar mais difíceis.
Ela pode pensar:
“Ele não entende o que está acontecendo comigo.”
Ele pode pensar:
“Ela não me deseja mais.”
Ela evita sexo porque sente dor.
Ele interpreta como rejeição.
Ele insiste.
Ela se sente pressionada.
E os dois vão se afastando.
Também pode acontecer o contrário: o parceiro apresenta uma dificuldade sexual, como problemas de ereção, e isso interfere no desejo e na dinâmica do casal. A literatura médica reconhece que problemas sexuais do parceiro, diferenças de desejo e dificuldades no relacionamento também podem afetar a sexualidade feminina.
Por isso, muitas vezes não estamos diante de “um problema dela”.
Estamos diante de uma questão sexual do casal.
O que fazer?
Não existe uma solução única.
O primeiro passo é uma consulta médica, especialmente quando existe dor, ressecamento, sangramento, alteração urinária ou mudança importante na resposta sexual. É preciso investigar o que está acontecendo fisicamente e quais tratamentos podem ajudar.
Mas o corpo não é tudo.
É preciso também olhar para o comportamento sexual, os sentimentos e o relacionamento.
É aí que entra o atendimento clínico em sexologia e terapia.
Conversar sobre sexo, compreender as mudanças, trabalhar vergonha e insegurança, melhorar a comunicação, entender o desejo de cada um e encontrar novas formas de intimidade pode fazer parte do tratamento.
E uma coisa importante: não existe uma única maneira correta de viver o sexo depois da menopausa.
Para alguns casais, a penetração continua sendo importante. Para outros, carícias, beijos, sexo oral, masturbação a dois ou outras formas de intimidade passam a ter mais espaço. O importante é que o casal encontre o que é prazeroso e possível para os dois.
O olhar que proponho no meu trabalho
Na minha prática clínica em sexologia e terapia, trabalho justamente com esse olhar integrado.
Quando uma mulher diz:
“Eu perdi a vontade de fazer sexo”, a pergunta não deve terminar aí.
É preciso descobrir:
É falta de desejo? É dor? É ressecamento? É dificuldade de excitação? É medo? É vergonha? É uma mudança na relação? É uma dificuldade do parceiro? Ou são várias dessas coisas juntas?
A avaliação médica cuida das questões físicas e fisiológicas.
A sexologia clínica e a terapia ajudam a cuidar dos aspectos psicológicos, comportamentais e relacionais.
Porque sexualidade não acontece apenas no corpo.
Acontece também na cabeça, na autoestima, na relação e na maneira como duas pessoas se encontram.
Menopausa não precisa significar o fim da vida sexual.
Pode significar uma fase de mudanças.
E, com informação, cuidado médico e acompanhamento clínico adequado, pode também ser uma oportunidade para reconstruir uma vida sexual mais consciente, prazerosa e possível para a mulher e para o casal.
Por Kelly Corrêa
Sexóloga, Terapeuta Sexual, Escritora e Palestrante
@kellycorreaoficial



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