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Florianópolis,02/10/2026

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Kelly Corrêa

Câncer de mama: o impacto no desejo, na autoestima e na sexualidade da mulher

"A mulher que enfrenta o câncer não precisa provar que é forte o tempo todo. Ela também precisa de espaço para sentir, desejar, chorar, se reconhecer e ser acolhida."


Câncer de mama: o impacto no desejo, na autoestima e na sexualidade da mulher

Quando falamos sobre câncer de mama, geralmente pensamos em prevenção, diagnóstico, cirurgia e tratamento. Mas existe uma dimensão da saúde da mulher que ainda precisa de mais espaço nas conversas: a sexualidade.

O diagnóstico de câncer de mama não afeta apenas o corpo físico. Ele pode transformar a maneira como a mulher se enxerga, se relaciona com sua feminilidade, experimenta o desejo e vivencia a intimidade.

Para muitas mulheres, as mamas representam muito mais do que uma parte do corpo. Estão associadas à identidade, à sensualidade, à maternidade e à autoestima. Por isso, enfrentar uma cirurgia, uma mastectomia ou mudanças provocadas pelo tratamento pode trazer desafios emocionais que vão muito além da recuperação física.

E o que acontece com o desejo sexual durante esse processo?

O desejo não é uma resposta isolada do organismo. Ele envolve fatores físicos, hormonais, emocionais e relacionais. A quimioterapia, a hormonioterapia, a menopausa induzida, o cansaço, a dor e o ressecamento vaginal podem interferir na resposta sexual. Ao mesmo tempo, o medo, a ansiedade, a insegurança com a imagem corporal e as mudanças no relacionamento também podem afetar a intimidade.

Algumas mulheres sentem uma redução significativa do desejo. Outras precisam de mais tempo, segurança e acolhimento para voltar a sentir vontade de se aproximar sexualmente. Há ainda aquelas que passam a experimentar o próprio corpo de uma maneira diferente.

Nenhuma dessas experiências deve ser interpretada como falta de amor, de feminilidade ou de interesse pelo parceiro.


A autoestima e a reconstrução da imagem corporal

A perda de uma mama, as cicatrizes, as alterações de peso e a queda de cabelo podem modificar a percepção que a mulher tem de si mesma. Em alguns casos, ela passa a evitar espelhos, fotografias, toques e situações de exposição do próprio corpo.

É importante compreender que autoestima não se recupera simplesmente dizendo à mulher que ela continua bonita. Existe um processo de adaptação, reconhecimento e aceitação que pode exigir tempo e acompanhamento.

A sexualidade também não precisa estar condicionada à aparência. O corpo não perde seu valor, sua capacidade de sentir ou seu direito ao prazer porque mudou.

O papel da terapia sexual

É nesse contexto que a terapia sexual pode contribuir para o cuidado integral da mulher.

O acompanhamento oferece um espaço para conversar sobre questões que nem sempre aparecem nas consultas médicas: vergonha, medo da rejeição, dificuldade de sentir prazer, desconforto com o próprio corpo e insegurança diante da intimidade.

O trabalho pode envolver:

Autoconhecimento: reconhecer as mudanças físicas e emocionais e compreender as próprias necessidades.

Autoestima: desenvolver uma relação mais acolhedora com o corpo, respeitando o tempo de adaptação.

Reconexão com o prazer: descobrir formas de intimidade e sensualidade que façam sentido para cada mulher.

Comunicação afetiva: aprender a expressar limites, medos e desejos ao parceiro, quando houver.

Acompanhamento multidisciplinar: integrar o cuidado emocional e sexual ao acompanhamento oncológico e ginecológico.

A literatura clínica reconhece a importância do aconselhamento psicosexual, da educação em saúde sexual e, quando desejado pela paciente, das intervenções com o casal para lidar com dificuldades de desejo, imagem corporal e relacionamento. 

O parceiro também faz parte dessa conversa

O câncer pode transformar a dinâmica de um relacionamento. Muitas vezes, o parceiro tem medo de tocar, provocar dor ou parecer insensível. A mulher, por sua vez, pode interpretar o afastamento como falta de desejo ou atração.

Sem diálogo, essas inseguranças podem criar uma distância que nem sempre corresponde ao que cada um realmente sente.

A intimidade precisa ser reconstruída sem cobranças e sem a obrigação de voltar a ser exatamente como era antes. O carinho, a presença, a conversa e o respeito aos limites também são formas de viver a sexualidade.

E é fundamental lembrar que a participação do parceiro deve acontecer conforme a vontade da mulher, preservando sua autonomia.

Cuidar da sexualidade também é cuidar da saúde

Ainda precisamos ampliar o espaço dedicado à saúde sexual durante e depois do tratamento do câncer de mama. A mulher não deveria precisar esperar que a vida sexual se torne um problema grave para conseguir conversar sobre ela com a equipe de saúde.

Alterações hormonais, ressecamento vaginal, dor e dificuldades de excitação ou desejo merecem atenção. Existem possibilidades de cuidado, mas cada intervenção precisa considerar o histórico da paciente e o tratamento oncológico, especialmente quando envolve hormônios. 

O objetivo não é estabelecer um prazo para a recuperação do desejo, nem transformar a retomada da vida sexual em mais uma meta a cumprir. É garantir que a mulher tenha informação, acolhimento e liberdade para decidir o que deseja para si.

Neste Outubro Rosa, proponho que a nossa conversa vá além do diagnóstico e da sobrevivência. Que possamos falar também sobre a mulher que existe durante o tratamento, sobre seu direito à autoestima, ao afeto, à intimidade e ao prazer.

Porque cuidar da mulher por inteiro também significa reconhecer sua sexualidade — não como uma obrigação, mas como uma dimensão legítima da sua saúde e da sua qualidade de vida.

Kelly Corrêa

Sexóloga, terapeuta sexual e mentora em saúde e educação sexual | @kellycorreaoficial



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