Seja bem-vindo
Florianópolis,11/08/2026

  • A +
  • A -

Kelly Corrêa

Pai também educa para a sexualidade — mesmo quando não fala sobre sexo

No Dia dos Pais, é oportuno lembrar que a educação sexual dos filhos começa muito antes da primeira conversa sobre sexo. E a presença paterna é decisiva nesse processo.


Pai também educa para a sexualidade — mesmo quando não fala sobre sexo

Há uma conversa que muitos pais ainda evitam.

À medida que os filhos crescem, surgem dúvidas sobre corpo, namoro, desejo, pornografia, relacionamentos, prevenção, limites e sexualidade. Diante desse cenário, parte dos pais espera que a escola assuma o tema. Outros acreditam que o assunto será compreendido “no tempo certo”. Há também quem tema que falar sobre sexualidade estimule precocemente o comportamento sexual.

O problema dessa postura é que o silêncio também educa.

Quando a família não fala, outros espaços ocupam esse lugar. A internet, as redes sociais, os amigos e, muitas vezes, a pornografia passam a ser as principais fontes de informação — nem sempre confiáveis, equilibradas ou responsáveis.

Nesse contexto, o papel do pai não começa quando chega a hora de explicar o que é sexo. Ele começa muito antes.

O filho aprende pelo exemplo

A educação sexual não se limita a informações biológicas ou preventivas. Ela envolve valores, limites, respeito e convivência.

Meninos e meninas aprendem sobre relações humanas a partir do ambiente em que vivem. Observam como o pai trata a mãe, como se refere às mulheres, como reage a um “não”, como lida com frustrações e como expressa afeto.

Também aprendem que é possível um homem demonstrar carinho, pedir desculpas, ouvir e expressar sentimentos sem que isso comprometa sua identidade.

Esse conjunto de referências forma a base da compreensão sobre respeito, consentimento e responsabilidade.

O pai não precisa ter todas as respostas

Um dos principais obstáculos para muitos pais é a insegurança diante das perguntas dos filhos.

A boa notícia é que não é necessário ter todas as respostas.

O mais importante é a disponibilidade para conversar.


Dizer que não sabe e buscar a informação junto com o filho, perguntar o que ele já ouviu sobre o assunto e manter um canal aberto de diálogo são atitudes mais relevantes do que respostas prontas.

A adolescência é uma fase de intensas transformações físicas e emocionais, e a qualidade da comunicação familiar tem impacto direto na forma como os jovens lidam com essas mudanças, como aponta o UNICEF em estudos sobre parentalidade na adolescência.

Mais do que grandes conversas pontuais, o que faz diferença são os diálogos frequentes e naturais ao longo do desenvolvimento.

Falar sobre sexo não estimula o sexo

Ainda persiste entre muitos pais a ideia de que abordar sexualidade pode incentivar a prática sexual precoce.


As evidências mostram o contrário.

A educação sexual baseada em informação qualificada contribui para decisões mais seguras, maior uso de métodos de prevenção e redução de comportamentos de risco. A UNESCO destaca que programas de educação sexual não aumentam a atividade sexual entre adolescentes, mas favorecem atitudes mais responsáveis.

Isso não significa transformar a casa em um ambiente de aulas formais, mas sim estar preparado para responder quando o tema surgir.

Se o filho pergunta sobre namoro, fala-se sobre namoro. Se pergunta sobre pornografia, o tema deve ser tratado com seriedade. Se há dúvidas sobre prevenção, o diálogo deve ser claro. Se a questão envolve consentimento, o foco deve ser o respeito.

O essencial é não deixar o filho sem referência.


A responsabilidade na formação dos meninos

A educação de meninos exige atenção especial porque ainda circulam socialmente ideias distorcidas sobre masculinidade.

Expressões como “homem tem que pegar todas”, “não pode demonstrar fraqueza” ou “não é não, mas depende” reforçam comportamentos de risco e relações desequilibradas.

A presença paterna pode atuar justamente na desconstrução dessas mensagens.

É papel do pai reforçar que respeito não é negociável, que consentimento é indispensável, que rejeição não é humilhação e que masculinidade não se mede por conquistas sexuais.

Também é fundamental mostrar que vulnerabilidade, diálogo e responsabilidade fazem parte da maturidade emocional.


O papel do pai na formação das meninas

No caso das meninas, a presença paterna também é determinante.

Ela contribui para a construção da autoestima, da noção de limites e da capacidade de reconhecer relações saudáveis.

Uma filha precisa compreender que seu valor não está condicionado a aprovação externa e que não deve aceitar violência, pressão ou desrespeito.

Mais do que proteção excessiva, o que se espera é formação para autonomia e discernimento.


Responsabilidade também faz parte da conversa


A educação sexual inclui também a compreensão de consequências.

Relações sexuais envolvem aspectos emocionais, físicos e sociais, além de riscos como infecções sexualmente transmissíveis e gravidez não planejada. Por isso, órgãos de saúde recomendam o uso de preservativos e a chamada dupla proteção como forma de prevenção.

Mas responsabilidade não deve ser tratada apenas sob a lógica do medo.

Ela também envolve cuidado com o outro, respeito aos limites, comunicação clara e preservação da intimidade.

Não pressionar, não expor, não compartilhar conteúdos íntimos e não transformar experiências pessoais em exposição pública são aspectos fundamentais dessa formação.


Uma construção contínua

A educação sexual não acontece em um único momento.

Ela se constrói ao longo do tempo, em diferentes situações: nas primeiras perguntas da infância, nas mudanças da puberdade, nos primeiros relacionamentos, nas dúvidas sobre o que se vê na internet e nas conversas informais do dia a dia.

Cada uma dessas situações representa uma oportunidade de orientação.

Nesse processo, o papel do pai vai além de prover e proteger. Ele também forma.

Forma valores, referências e atitudes que influenciam diretamente a forma como os filhos irão se relacionar com o próprio corpo e com o outro.


O que está em jogo

No Dia dos Pais, a reflexão que se impõe não é apenas sobre presença, mas sobre formação.

Que tipo de referência está sendo construída dentro de casa?

Que modelo de homem está sendo transmitido aos filhos?

A educação pelo exemplo, muitas vezes silenciosa, pode ser mais determinante do que qualquer discurso.

E, nesse sentido, o pai participa da educação sexual dos filhos mesmo quando não fala diretamente sobre sexo — porque educa diariamente sobre respeito, limites e responsabilidade.


────────

Kelly Corrêa 

Sexóloga -Terapeuta Sexual

Educadora sexual - escritora e palestrante 

@kellycorreaoficial



COMENTÁRIOS

LEIA TAMBÉM

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Recuperar Senha

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.