Tarcíbulo Serratine Neto
A menos de uma semana das urnas, Brasil chega ao voto dividido e Santa Catarina vive uma nova transformação social
Faltam poucos dias para o brasileiro voltar às urnas. No próximo domingo, 4 de outubro, mais de 158 milhões de eleitoras e eleitores estarão aptos a participar do primeiro turno das Eleições 2026, escolhendo presidente da República, governador, dois senadores, deputado federal e deputado estadual ou distrital.
A votação acontecerá das 8h às 17h, pelo horário de Brasília.
E o Brasil chega a esse momento novamente marcado pela polarização.
De um lado, o campo político ligado ao atual governo federal. Do outro, uma direita que mantém forte presença eleitoral e capacidade de mobilização. Entre os dois polos, permanece o espaço para aqueles que não se identificam integralmente com nenhum dos lados e que, até os últimos dias, ainda podem definir sua escolha.
O que chama atenção é que, mais uma vez, a eleição presidencial chega à reta final sem que um terceiro nome tenha conseguido, até aqui, romper de maneira significativa a concentração da disputa entre os dois principais campos políticos.
Supremo também entra no debate eleitoral
A discussão política brasileira não se limita às urnas.
O Supremo Tribunal Federal tornou-se um dos principais pontos de tensão do debate nacional. A percepção de parte da sociedade sobre a atuação da Corte, somada às críticas vindas de diferentes setores políticos, colocou o STF no centro da discussão sobre os limites entre os Poderes.
Ao mesmo tempo, pesquisas de opinião mostram que a relação dos brasileiros com a Corte é complexa e que o grau de influência desse tema sobre o voto não é uniforme.
O resultado é um ambiente político em que instituições, decisões judiciais, liberdade de expressão, segurança, economia e programas sociais passaram a fazer parte de uma mesma disputa narrativa.
E, em um país já bastante dividido, cada novo episódio parece ter potencial para aumentar ainda mais a distância entre os grupos.
A falta de um terceiro caminho forte
A reta final da eleição presidencial evidencia outra questão: quem pretende ocupar o espaço existente entre os dois grandes polos ainda não conseguiu transformar esse espaço em uma candidatura nacional com a mesma força eleitoral dos principais concorrentes.
O eleitor brasileiro encontra, portanto, uma eleição marcada por duas grandes correntes políticas e por uma parcela significativa da população que procura alternativas, mas que ainda não encontrou uma candidatura capaz de concentrar esse desejo de mudança ou de alternativa.
Isso ajuda a explicar por que a polarização continua sendo uma das marcas mais fortes das eleições de 2026.
Santa Catarina e uma direita que mantém força eleitoral
Se existe um estado onde essa realidade ganha contornos ainda mais claros, é Santa Catarina.
O estado mantém uma tradição eleitoral de forte presença de candidaturas de direita e centro-direita, e o cenário atual indica a possibilidade de continuidade dessa característica nas eleições deste ano.
Na disputa pelo Governo de Santa Catarina, pesquisas divulgadas durante setembro registraram vantagem significativa do atual governador Jorginho Mello sobre os demais concorrentes. É uma fotografia do momento eleitoral, e não um resultado antecipado, já que a decisão será tomada nas urnas.
O fato, porém, é que Santa Catarina chega ao domingo eleitoral novamente como um dos estados brasileiros onde a direita demonstra forte capacidade de mobilização e presença no eleitorado.
Mas Santa Catarina está mudando
Existe, entretanto, outro fenômeno acontecendo no estado e que merece ser observado para além dos números eleitorais.
Santa Catarina se transformou em um dos principais destinos de brasileiros que deixam outras regiões do país em busca de emprego, segurança, qualidade de vida e novas oportunidades.
O Censo 2022 confirmou a força desse movimento: Santa Catarina registrou o maior saldo migratório do Brasil entre 2017 e 2022, com mais de 354 mil pessoas no saldo entre entradas e saídas.
E quem vive no estado percebe que essa migração não representa apenas números em uma tabela.
Ela está modificando bairros, cidades, hábitos, sotaques, culturas e até o comércio catarinense.
Do Norte e Nordeste para Santa Catarina
Nos últimos anos, aumentou de maneira perceptível a presença em Santa Catarina de brasileiros vindos do Norte e do Nordeste.
Há relatos e comunidades formadas por pessoas que chegaram da Bahia — inclusive de municípios como Coração de Maria, citado entre os locais de origem de famílias que passaram a viver em Santa Catarina — além de pessoas provenientes do Acre, Pará e Amazonas.
São brasileiros que chegam trazendo suas histórias, seus costumes, sua religiosidade e, naturalmente, sua gastronomia.
E talvez seja justamente na alimentação que essa transformação possa ser observada de maneira mais curiosa.
O Norte chegando às bancas de Florianópolis
Quem frequenta o Mercado Público de Florianópolis começa a perceber uma mudança que, há alguns anos, seria muito menos comum.
Produtos tradicionalmente associados à culinária amazônica e nortista passaram a encontrar espaço no comércio local.
Farinha de diferentes tipos, polpas de frutas, produtos regionais e até peixes de água doce, que não faziam parte do cotidiano das bancas do Mercado Público, passaram a aparecer com maior frequência.
Hoje já é possível encontrar, por exemplo, pacu e tambaqui, peixes que fazem parte da cultura alimentar de outras regiões brasileiras e que começam a conquistar espaço também em Florianópolis.
É uma pequena fotografia de uma grande transformação.
O catarinense não está apenas recebendo novos moradores.
Está também recebendo novos sabores, novas culturas e novos costumes.
O paradoxo que merece reflexão
E aqui aparece um paradoxo interessante para o debate nacional.
O atual governo federal costuma destacar suas políticas sociais, programas de transferência de renda e ações voltadas às populações de menor renda, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, como parte importante de sua atuação.
O discurso é de que essas políticas oferecem suporte às famílias mais vulneráveis e ajudam a reduzir desigualdades regionais.
Mas, simultaneamente, milhares de brasileiros dessas mesmas regiões continuam procurando outros lugares para viver.
Santa Catarina é um dos destinos escolhidos.
Isso não significa, por si só, que essas pessoas estejam deixando seus estados exclusivamente por causa de políticas federais, nem permite concluir que exista uma rejeição política ao governo. Migração é um fenômeno complexo, influenciado por emprego, renda, segurança, redes familiares, custo de vida, oportunidades e qualidade dos serviços públicos.
Mas o movimento levanta uma pergunta legítima:
Se determinadas regiões recebem políticas sociais e investimentos públicos considerados importantes, por que tantos brasileiros continuam procurando oportunidades para reconstruir suas vidas em outros estados?
A pergunta não tem uma resposta única.
E talvez seja justamente essa complexidade que esteja faltando ao debate político brasileiro.
O eleitor que chega junto com a migração
Existe ainda uma consequência política que não pode ser ignorada.
Quem migra não deixa para trás sua história, sua cultura ou sua visão de mundo.
O novo morador de Santa Catarina continua sendo cidadão brasileiro, mantém vínculos com sua região de origem e passa a participar da vida econômica, social e, naturalmente, eleitoral do estado onde escolheu viver.
Isso significa que a transformação demográfica também pode, ao longo do tempo, produzir mudanças na composição política das comunidades.
Não se trata de afirmar que um migrante votará em determinado campo político. Não existe uma relação automática entre origem geográfica e voto.
Mas é evidente que um estado que recebe centenas de milhares de novos moradores passa por uma transformação social que merece ser acompanhada também sob a perspectiva eleitoral.
Domingo será a hora da escolha
No próximo domingo, o brasileiro terá diante de si uma urna eletrônica e seis escolhas eleitorais.
Não será apenas uma eleição presidencial.
Será uma escolha para o Congresso Nacional, para a Assembleia Legislativa, para o Senado e para o Governo do Estado, além da Presidência da República.
Em Santa Catarina, a eleição acontece em um estado que continua apresentando forte presença da direita, mas que também está passando por uma transformação social provocada pela chegada de brasileiros de diferentes partes do país.
No Mercado Público de Florianópolis, talvez seja possível enxergar essa transformação de maneira simples: na mesma banca onde antes predominavam produtos conhecidos da culinária catarinense, hoje também aparecem farinha, polpas, pacu, tambaqui e outros sabores trazidos por brasileiros que escolheram Santa Catarina para viver.
Enquanto a política divide, a migração mistura.
Enquanto os discursos criam fronteiras ideológicas, as pessoas atravessam fronteiras geográficas em busca de uma vida melhor.
E domingo, quando as urnas forem abertas, será o eleitor — catarinense de nascimento ou brasileiro que escolheu Santa Catarina como sua nova casa — quem terá a palavra.
A democracia, afinal, não escolhe pelo cidadão. Ela dá ao cidadão o direito de escolher.



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