Andréa Vergani
A conta que não fecha: mais dias de Carnaval do que de licença-paternidade no país que diz defender a família
Enquanto o país inteiro para pordias para celebrar o Carnaval, milhares de pais voltam ao trabalho quando seusfilhos ainda estão aprendendo a reconhecer o mundo fora do útero.
No Brasil, a regra garante apenas5 dias corridos de licença-paternidade. Cinco dias para atravessar a maiortransformação da vida de uma família. Cinco dias para aprender a segurar umrecém-nascido, apoiar uma mulher em puerpério, reorganizar uma casa inteira.Cinco dias.
E o Carnaval? Dependendo dacidade e do calendário, pode durar oficialmente quatro dias — e, na prática,uma semana inteira de paralisações.
A comparação não tem comoobjetivo diminuir a importância cultural do carnaval. O Carnaval é parte danossa identidade, da nossa economia e da nossa história. A ótica é outra:
o que essa desproporção revela sobre as prioridades estruturais do país?
A licença-paternidade estáprevista na Constituição e é regulamentada pela legislação trabalhista (CLT).
- Regrageral: 5 dias corridos após o nascimento.
- Empresas que aderem ao Programa Empresa Cidadã:possibilidade de prorrogação para 20 dias.Não é para todos.Não éuniversal.Não é política estruturante de Estado — é exceção.
Enquanto isso,a licença-maternidade é de 120 dias (podendo chegar a 180 no Empresa Cidadã).
A diferençaescancara uma lógica antiga:cuidar ainda é considerado tarefa feminina.
Precisamosentenderque Cuidado não é “ajuda”. É responsabilidade.
Quando o Estado concede ao paiapenas cinco dias, ele comunica algo simbólico e profundo: Que a presençapaterna é acessória. Que a responsabilidade principal é da mulher.
E isso não afeta apenas os homens— afeta, sobretudo, as mulheres e as crianças.
A ausência de políticas públicasrobustas de incentivo à co-parentalidade:
- Sobrecarregamães.
- Impactaa saúde mental materna no puerpério.
- Aumentaa desigualdade no mercado de trabalho.
- Reforçaa ideia de que mulheres são “menos produtivas” por engravidarem.
- Naturalizao abandono paterno.
Se queremos falar de igualdade degênero com seriedade, precisamos falar de divisão real de responsabilidades.
A proposta deampliação da licença-paternidade no Brasil, debatida ao final de 2025, prevê aampliação gradual dos atuais 5 dias para até 20 dias. O projeto, protocolado em2008, levou quase duas décadas para sair do papel e só avançou diante damobilização e da pressão constante de mães e movimentos da sociedade civil.Ainda assim, o resultado final revela-se insuficiente frente às reais demandasdas famílias brasileiras e à urgência de políticas públicas que promovam, deforma concreta, a corresponsabilidade no cuidado.
A ampliação de5 para 20 dias — e de forma progressiva — está longe de representar umapolítica pública robusta de incentivo à coparentalidade e ao compartilhamentodo cuidado. Em um país que insiste em afirmar que a família é prioridade, amudança deveria ter sido mais corajosa, estruturante e alinhada às demandascontemporâneas de equidade de gênero.
Perdeu-se aoportunidade de transformar discurso em compromisso concreto. Valorizar afamília exige reconhecer que o cuidado não é responsabilidade exclusiva dasmulheres. Exige criar condições reais para que pais estejam presentes desde oinício, fortalecendo vínculos, dividindo responsabilidades e contribuindo parauma sociedade mais justa.
Aliás, tantolicença-maternidade quando a licença-paternidade no Brasil se revelaminsuficientes. E o país parece não querer enxergar as consequências e prejuízosdesastrosos dessa omissão para o país.
Em paísesdesenvolvidos fala-se em licença parentalidade, onde o pai e a mãe se revezamna ausência ao trabalho para o cuidado com o filho. Política que incentiva a co-parentalidadee responsabilidade e a divisão responsável do trabalho do cuidado.
Países que ampliaram a licença-paternidade colheramresultados concretos:
- Maiorvínculo afetivo entre pai e bebê.
- Reduçãode violência doméstica.
- Maiorparticipação masculina nas tarefas domésticas ao longo da vida.
- Reduçãoda penalização profissional das mulheres.
- Melhoresindicadores de desenvolvimento infantil.
Não se tratade um “benefício ao pai”.É investimento na infância.É investimento nasociedade.
O trabalho do cuidado ainda é invisível.
E ele continua sendo tratado como algo privado, feminino enão remunerado.
Enquanto o país investe milhõesem estrutura para grandes eventos — e isso também é política pública — seguimostratando o cuidado como um assunto doméstico, quando ele é profundamenteestrutural.
O Brasil precisa avançar em:
- Licençaparental compartilhada.
- Ampliaçãoda licença-paternidade e (maternidade).
- Incentivosreais à participação masculina no cuidado.
- Crechespúblicas de qualidade em quantidade suficiente, em período integral ehonorários alternativos.
- Políticasde proteção à maternidade e à primeira infância.
Que sociedade queremos construir?
Não se trata de ser contra o Carnaval.Trata-se de refletir:
Se queremos um país mais justo para mulheres e crianças,precisamos reorganizar prioridades.
E, principalmente, com acompreensão de que cuidar é um ato coletivo — e deveria ser tratado como tal.



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