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Florianópolis,04/02/2026

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Andréa Vergani

Para além da polarização: Brasil, um país violento — e não apenas com os animais


Para além da polarização: Brasil, um país violento — e não apenas com os animais

O Caso Orelha ocupa, há dias, as redes sociais e o noticiário. Está nos perfis jornalísticos, nas páginas de políticos, ativistas e também de pessoas comuns. A sensação é de que o país acordou.


Mas é preciso ir além da indignação momentânea.

O Caso Orelha não é um episódio isolado de violência. O Brasil convive com ela diariamente. Somos um dos países mais violentos do mundo. Um país que figura entre os que mais matam mulheres; que violenta, invisibiliza e marginaliza pessoas idosas, pessoas com deficiência, crianças, pessoas pretas, pessoas LGBTQIAPN+, imigrantes e diversas populações em situação de vulnerabilidade. É, inclusive, o país que mais mata pessoas trans no mundo.

Estamos exaustos de tanta violência. E, diante desse cenário, a pergunta que se impõe é incômoda: como criar nossos filhos em meio a tudo isso?

Os adolescentes envolvidos em episódios de extrema crueldade não surgem do nada. São frutos de uma sociedade adoecida, marcada pela omissão, pela banalização da violência e por uma permanente sensação de impunidade. São jovens que, amanhã, ocuparão espaços de poder e decisão — médicos, advogados, gestores, juízes — e que nossos filhos terão de enfrentar em algum momento da vida.

O que mais assusta não é apenas o ato em si, mas o contexto que o sustenta.

Além da brutalidade, assistimos ao uso político do caso: a dor transformada em palanque, o sofrimento instrumentalizado para reforçar uma polarização que pouco resolve e muito beneficia uma classe política distante da realidade da população. A violência vira moeda de troca. A indignação, estratégia. E a sociedade, mais uma vez, perde.

Há ainda uma reflexão urgente sobre a forma como estamos criando crianças e adolescentes. A terceirização do cuidado para as telas, a ausência de diálogo, pais e mães cada vez mais distantes do que acontece dentro dos próprios lares. Jovens que têm tudo materialmente, mas são pobres de afeto, de limites, de valores e de presença. Professores amedrontados, estafados, frustrados, sem voz e pedindo socorro.

A violência não se revela apenas em episódios como esse. Ela começa muito antes. É naturalizada em piadas, “brincadeiras”, jogos, discursos que minimizam o sofrimento alheio e comportamentos que normalizam a agressividade desde a infância.

Vivemos em uma sociedade que insiste em dizer que meninas devem aprender artes marciais para se defender, mas que não exige, com a mesma intensidade, que meninos aprendam a respeitar.

Uma sociedade que orienta mães a “escolherem melhor os pais de seus filhos”, mas que falha sistematicamente em cobrar que os pais cumpram com suas responsabilidades.

Uma sociedade que passa a mão na cabeça de meninos, que clama apenas por punição após a tragédia, mas que negligencia o trabalho contínuo de prevenção, educação e responsabilização coletiva.

O Caso Orelha escancara mais do que a crueldade contra animais. Ele revela a violência estrutural, a seletividade da justiça, a adolescência perdida e uma sociedade profundamente adoecida.

É triste ver a brutalidade sofrida pelos animais.

É triste ver a coação e a pressão enfrentadas pelo lado mais frágil desse crime.

É triste ver adolescentes sem referências éticas.

É triste ver adultos que se colocam acima do bem e do mal.

É triste perceber que muitos não conseguem refletir para além da polarização, ignorando que a violência é estrutural, atravessa classes sociais, ideologias, direita e esquerda — e atinge toda a sociedade.

Enquanto continuarmos apostando exclusivamente na repressão, ignorando a prevenção, a educação e a responsabilização real, muitos Orelhas e muitas Catarinas continuarão perdendo a vida.

O desafio não é escolher um lado.

O desafio é escolher a humanidade.



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