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Florianópolis,20/02/2026

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Andréa Vergani

A conta que não fecha: mais dias de Carnaval do que de licença-paternidade no país que diz defender a família


A conta que não fecha: mais dias de Carnaval do que de licença-paternidade no país que diz defender a família

Enquanto o país inteiro para pordias para celebrar o Carnaval, milhares de pais voltam ao trabalho quando seusfilhos ainda estão aprendendo a reconhecer o mundo fora do útero.

No Brasil, a regra garante apenas5 dias corridos de licença-paternidade. Cinco dias para atravessar a maiortransformação da vida de uma família. Cinco dias para aprender a segurar umrecém-nascido, apoiar uma mulher em puerpério, reorganizar uma casa inteira.Cinco dias.

E o Carnaval? Dependendo dacidade e do calendário, pode durar oficialmente quatro dias — e, na prática,uma semana inteira de paralisações.

A comparação não tem comoobjetivo diminuir a importância cultural do carnaval. O Carnaval é parte danossa identidade, da nossa economia e da nossa história. A ótica é outra:
o que essa desproporção revela sobre as prioridades estruturais do país?

A licença-paternidade estáprevista na Constituição e é regulamentada pela legislação trabalhista (CLT).

  • Regrageral: 5 dias corridos após o nascimento.
  • Empresas que aderem ao Programa Empresa Cidadã:possibilidade de prorrogação para 20 dias.Não é para todos.Não éuniversal.Não é política estruturante de Estado — é exceção.

Enquanto isso,a licença-maternidade é de 120 dias (podendo chegar a 180 no Empresa Cidadã).

A diferençaescancara uma lógica antiga:cuidar ainda é considerado tarefa feminina.

Precisamosentenderque Cuidado não é “ajuda”. É responsabilidade.

Quando o Estado concede ao paiapenas cinco dias, ele comunica algo simbólico e profundo: Que a presençapaterna é acessória. Que a responsabilidade principal é da mulher.

E isso não afeta apenas os homens— afeta, sobretudo, as mulheres e as crianças.

A ausência de políticas públicasrobustas de incentivo à co-parentalidade:

  • Sobrecarregamães.
  • Impactaa saúde mental materna no puerpério.
  • Aumentaa desigualdade no mercado de trabalho.
  • Reforçaa ideia de que mulheres são “menos produtivas” por engravidarem.
  • Naturalizao abandono paterno.

Se queremos falar de igualdade degênero com seriedade, precisamos falar de divisão real de responsabilidades.

A proposta deampliação da licença-paternidade no Brasil, debatida ao final de 2025, prevê aampliação gradual dos atuais 5 dias para até 20 dias. O projeto, protocolado em2008, levou quase duas décadas para sair do papel e só avançou diante damobilização e da pressão constante de mães e movimentos da sociedade civil.Ainda assim, o resultado final revela-se insuficiente frente às reais demandasdas famílias brasileiras e à urgência de políticas públicas que promovam, deforma concreta, a corresponsabilidade no cuidado.

A ampliação de5 para 20 dias — e de forma progressiva — está longe de representar umapolítica pública robusta de incentivo à coparentalidade e ao compartilhamentodo cuidado. Em um país que insiste em afirmar que a família é prioridade, amudança deveria ter sido mais corajosa, estruturante e alinhada às demandascontemporâneas de equidade de gênero.

Perdeu-se aoportunidade de transformar discurso em compromisso concreto. Valorizar afamília exige reconhecer que o cuidado não é responsabilidade exclusiva dasmulheres. Exige criar condições reais para que pais estejam presentes desde oinício, fortalecendo vínculos, dividindo responsabilidades e contribuindo parauma sociedade mais justa.

Aliás, tantolicença-maternidade quando a licença-paternidade no Brasil se revelaminsuficientes. E o país parece não querer enxergar as consequências e prejuízosdesastrosos dessa omissão para o país.

Em paísesdesenvolvidos fala-se em licença parentalidade, onde o pai e a mãe se revezamna ausência ao trabalho para o cuidado com o filho. Política que incentiva a co-parentalidadee responsabilidade e a divisão responsável do trabalho do cuidado.

Países que ampliaram a licença-paternidade colheramresultados concretos:

  • Maiorvínculo afetivo entre pai e bebê.
  • Reduçãode violência doméstica.
  • Maiorparticipação masculina nas tarefas domésticas ao longo da vida.
  • Reduçãoda penalização profissional das mulheres.
  • Melhoresindicadores de desenvolvimento infantil.

Não se tratade um “benefício ao pai”.É investimento na infância.É investimento nasociedade.

O trabalho do cuidado ainda é invisível.

O cuidado movimenta a economia.
O cuidado sustenta a produtividade.
O cuidado permite que o mercado funcione.

E ele continua sendo tratado como algo privado, feminino enão remunerado.

Enquanto o país investe milhõesem estrutura para grandes eventos — e isso também é política pública — seguimostratando o cuidado como um assunto doméstico, quando ele é profundamenteestrutural.

O Brasil precisa avançar em:

  • Licençaparental compartilhada.
  • Ampliaçãoda licença-paternidade e (maternidade).
  • Incentivosreais à participação masculina no cuidado.
  • Crechespúblicas de qualidade em quantidade suficiente, em período integral ehonorários alternativos.
  • Políticasde proteção à maternidade e à primeira infância.

Que sociedade queremos construir?

Não se trata de ser contra o Carnaval.Trata-se de refletir:

Se queremos um país mais justo para mulheres e crianças,precisamos reorganizar prioridades.

Porque igualdade não se faz apenas com discurso.
Se faz com legislação.
Com orçamento.
Com coragem política.

E, principalmente, com acompreensão de que cuidar é um ato coletivo — e deveria ser tratado como tal.



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