Ultraprocessados nas escolas: estamos normalizando riscos à saúde infantil?
Por Carolina von Borowski, Nutricionista materno infantil, especialista em autismo e TDAH
A alimentação escolar nunca foi apenas sobre saciar a fome — ela é um instrumento de formação de hábitos, saúde e cidadania. Ainda assim, o que vemos hoje em muitas escolas brasileiras é a presença crescente de alimentos ultraprocessados: produtos com excesso de açúcar, gordura, sódio e aditivos químicos. Mais do que uma escolha individual, trata-se de um problema estrutural que precisa ser enfrentado com urgência.
Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) mostram que os ultraprocessados já fazem parte da rotina alimentar infantil no Brasil. Em áreas urbanas, cerca de 50% das crianças consumiram esses produtos no dia anterior, principalmente em lanches — exatamente a refeição mais ligada ao ambiente escolar. Outro dado alarmante aponta que 8 em cada 10 crianças brasileiras de até 5 anos já consomem ultraprocessados, segundo o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI).
Quando olhamos para dentro das escolas, o cenário preocupa ainda mais. Pesquisas nacionais mostram que a presença de cantinas e a oferta desses produtos estão diretamente associadas ao aumento do consumo entre estudantes. Ou seja, o ambiente escolar não apenas reflete hábitos alimentares inadequados — ele também os reforça.
As consequências são evidentes. O consumo frequente de ultraprocessados está relacionado ao aumento do risco de obesidade infantil, diabetes, hipertensão e outros prejuízos metabólicos desde os primeiros anos de vida. Em algumas regiões do país, mais de 95% das crianças entre 2 e 9 anos já consomem esses produtos regularmente, evidenciando o quanto esse padrão alimentar foi naturalizado.
Mas por que isso acontece? Não é apenas falta de informação. O próprio UNICEF aponta fatores como praticidade, preço acessível, marketing agressivo e a associação cultural desses alimentos com recompensa e afeto. Muitas famílias acreditam estar fazendo boas escolhas, influenciadas por embalagens atrativas e rotulagens pouco claras.
É justamente por isso que a escola precisa assumir um papel ativo. Não basta educar — é preciso proteger. O ambiente escolar deve ser promotor de saúde, alinhado ao Guia Alimentar para a População Brasileira, priorizando alimentos in natura e minimamente processados.
Diversos estados brasileiros e países já avançam com leis que restringem a venda de ultraprocessados nas escolas. Essas medidas não são exageradas: são baseadas em evidências científicas. Defender essa restrição não é proibir, mas equilibrar um ambiente que hoje favorece escolhas prejudiciais.
Se queremos uma geração mais saudável, precisamos começar pelo lugar onde hábitos são construídos todos os dias: a escola.



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