Tarcíbulo Serratine Neto
O BRASIL NÃO TERMINA NAS URNAS: O PERIGO DE TORCER CONTRA O PRÓPRIO PAÍS
Faltam duas semanas para o segundo turno das eleições presidenciais, e o Brasil volta a viver um dos períodos mais intensos de sua disputa política. De um lado, eleitores identificados com a direita; de outro, os que se identificam com a esquerda. Em meio a essa divisão, uma pergunta merece reflexão: até que ponto a disputa eleitoral está nos fazendo esquecer que, depois da contagem dos votos, continuaremos sendo um único país?
É natural que cada cidadão tenha suas convicções, defenda suas ideias e escolha o candidato que considera mais preparado para governar. A democracia existe justamente para garantir a liberdade de escolha e permitir que diferentes projetos de sociedade disputem, nas urnas, a confiança da população.
Mas há uma realidade que precisa ser encarada com maturidade: quem tem uma posição política consolidada dificilmente mudará de lado nos últimos dias de campanha. O eleitor que pretende votar em um candidato de direita, em regra, não será convencido a votar no candidato da esquerda apenas por ataques, provocações ou tentativas de desqualificação. O mesmo acontece no sentido contrário. Para muitos, a escolha já está feita, e o excesso de agressividade acaba servindo apenas para aprofundar as divisões.
Enquanto isso, as redes sociais se transformaram em verdadeiros campos de batalha. Multiplicam-se manifestações de ódio, informações falsas, acusações sem comprovação e tentativas de transformar adversários políticos em inimigos pessoais. Em alguns casos, pessoas se apresentam como porta-vozes de entidades, instituições ou organizações sem que tenham autorização para falar em nome delas, confundindo a opinião individual com um posicionamento institucional.
É preciso compreender que liberdade de expressão não significa liberdade para espalhar mentiras, atacar reputações ou atribuir a terceiros declarações que nunca fizeram. Da mesma forma, discordar de alguém não significa desrespeitá-lo. A democracia não exige que todos pensem igual, mas pressupõe que as diferenças possam ser debatidas sem que a dignidade das pessoas seja colocada em segundo plano.
Outro fenômeno preocupante é a chamada política do “quanto pior, melhor”. Em determinados ambientes, parece haver quem prefira ver o país enfrentar dificuldades a admitir que o governo escolhido pelo lado oposto possa apresentar resultados positivos. Como se a vitória de um candidato significasse que milhões de brasileiros deixariam de fazer parte da mesma nação.
Mas será que faz sentido torcer para que a economia piore, que o desemprego aumente, que os serviços públicos percam qualidade ou que o país enfrente dificuldades apenas para alimentar a narrativa de que o adversário estava errado?
Seja qual for o resultado das urnas, os efeitos das decisões políticas não ficarão restritos aos eleitores de um candidato. A economia, os empregos, os preços dos alimentos, a saúde, a educação e a segurança pública fazem parte da vida de todos. Quando o país enfrenta dificuldades, elas não perguntam em quem cada cidadão votou antes de bater à sua porta.
Torcer contra um governo é um direito político; torcer pelo fracasso do próprio país é outra coisa. É possível fiscalizar, criticar, cobrar promessas, denunciar irregularidades e fazer oposição firme sem desejar que a população inteira pague o preço de uma disputa partidária.
Também é importante lembrar que nenhum candidato é dono do Brasil, assim como nenhum eleitor tem o monopólio do patriotismo. A vitória nas urnas concede legitimidade democrática para governar dentro das regras constitucionais, mas não transforma o vencedor em representante exclusivo da nação. Da mesma forma, quem perde não deixa de ser cidadão nem perde o direito de fiscalizar e se manifestar.
O debate político precisa recuperar o seu sentido: discutir caminhos, comparar propostas, avaliar resultados e cobrar responsabilidades. Não se trata de exigir que alguém abandone suas convicções, mas de reconhecer que o respeito ao pensamento diferente é parte essencial da convivência democrática.
Nas próximas duas semanas, cada eleitor terá a oportunidade de reafirmar suas escolhas. Que o faça com liberdade, consciência e responsabilidade. Que questione as informações que recebe, verifique aquilo que compartilha e tenha cuidado antes de transformar divergências políticas em conflitos pessoais.
A eleição vai terminar. Os discursos de campanha perderão força, os palanques serão desmontados e as publicações mais inflamadas darão lugar a outras preocupações. A vida, porém, continuará. O trabalhador seguirá buscando seu sustento, as famílias continuarão enfrentando seus desafios e o país precisará encontrar soluções para os problemas que não desaparecem com a divulgação do resultado eleitoral.
No dia seguinte à votação, o Brasil continuará sendo o Brasil de todos: de quem venceu, de quem perdeu, de quem votou na direita, de quem escolheu a esquerda e também de quem fez outra escolha.
Porque a verdadeira maturidade democrática não está em concordar com o adversário, mas em compreender que a existência dele faz parte da democracia.
O voto termina na urna. A responsabilidade com o Brasil continua no dia seguinte.
E talvez essa seja a reflexão mais importante deste segundo turno: podemos ter candidatos diferentes, ideias opostas e projetos distintos para o futuro, mas continuaremos compartilhando a mesma bandeira, o mesmo território e o mesmo destino coletivo.
Que cada um torça por aquilo em que acredita. Mas que ninguém se esqueça de que desejar o fracasso do Brasil para comemorar o erro do adversário é, no fim das contas, correr o risco de comemorar a própria derrota.



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