Tarcíbulo Serratine Neto
Neném Maravilha: 74 anos de vida, 52 de música e uma história que se confunde com a velha Floripa
Dijalma Rita, o Neném Maravilha nasceu no Morro da Mariquinha, conheceu a Florianópolis do Miramar e do antigo Mercado Público e, há mais de cinco décadas, empresta sua voz à memória musical da cidade.
Existem pessoas que não precisam de uma placa com seu nome em uma rua para serem reconhecidas como parte da história de uma cidade.
Basta dizer o nome.
Em Florianópolis, dizer Neném Maravilha é falar de música, Carnaval, Mercado Público, boemia, amizade e, principalmente, de uma época em que a cidade parecia menor, mas as histórias eram enormes.
Aos 74 anos, completados recentemente, Dijalma Rita, o nosso Neném Maravilha, carrega nada menos que 52 anos de carreira musical.
Mas sua história com Florianópolis começou muito antes de subir aos palcos.
O MENINO DO MORRO DA MARIQUINHA
Nascido e criado no Morro da Mariquinha, Neném conheceu desde cedo as ruas da cidade.
Ainda menino, já descia para o centro de Florianópolis. Eram outros tempos. Uma cidade de outros costumes, outras paisagens e outras dificuldades.
Era o tempo do Miramar, quando aquele lugar era uma das grandes referências da Capital.
E o Mercado Público era muito mais do que um mercado.
Era ponto de encontro, de trabalho, de conversa, de amizade e também de sobrevivência.
Neném ainda guarda na memória os tempos em que vinha até o Mercado para conseguir alguns peixes e levar para casa.
É uma lembrança simples, mas que diz muito sobre aquela Florianópolis.
Uma cidade onde as pessoas se conheciam pelo nome, onde a solidariedade fazia parte do cotidiano e onde uma oportunidade podia mudar a vida de alguém.
UM BANQUINHO DE MADEIRA E O PRIMEIRO PALCO
Foi também no Mercado Público que a música começou a ganhar outro significado na vida de Neném.
Ele jamais esqueceu de Lauro Pereira, proprietário de um bar no Mercado, que acreditou naquele jovem e resolveu lhe dar uma oportunidade.
Lauro comprou um simples banquinho de madeira e colocou Neném para cantar no vão do Mercado.
“Foi ele que comprou um banquinho de madeira e me deu a oportunidade para cantar pela primeira vez no vão do Mercado”, recorda Neném.
Pode parecer pouco para quem olha hoje.
Mas, para aquele jovem, aquele banquinho era um palco.
E talvez ninguém imaginasse que daquele pequeno espaço surgiria uma carreira que atravessaria mais de cinco décadas.
O HOMEM QUE TRABALHOU, MAS NUNCA DEIXOU A MÚSICA
A vida também ensinou Neném a trabalhar duro.
Durante quatro anos, foi carteiro dos Correios.
Depois, passou pelo Banco do Estado de Santa Catarina, o nosso BESC, instituição que marcou a vida de milhares de catarinenses.
Mais tarde, foi na Fusesc que construiu uma longa trajetória profissional, permanecendo por mais de 16 anos, até completar seu tempo para a aposentadoria.
Mas havia algo que nenhum emprego conseguiu afastar de sua vida.
A música sempre esteve ali.
Paralela ao trabalho, acompanhando seus dias, seus amigos e seus sonhos.
Enquanto construía sua vida profissional, Neném também construía sua história como cantor.
38 ANOS CANTANDO O CARNAVAL
E que história!
Durante 38 anos, Neném foi a voz oficial do tradicional Bloco Eu Sou Mais Eu.
Foram quase quatro décadas cantando Carnaval e ajudando a escrever capítulos da folia de Florianópolis.
Ele chegou ao bloco pelas mãos de dois nomes que também são lembrados com carinho quando se fala da velha noite da Capital: Nego Tuca e Nego Deto.
E assim, entre sambas, marchinhas, amigos e foliões, Neném foi se tornando uma figura inseparável do Carnaval da cidade.
QUANDO FLORIPA CABIA NUMA RODA DE AMIGOS
Quem viveu aquela Florianópolis sabe que havia uma proximidade diferente entre as pessoas.
Os artistas se encontravam nos mesmos lugares.
Os boêmios conheciam os músicos.
Os músicos conheciam os jornalistas.
E todos conheciam alguém que conhecia alguém.
Entre esses personagens estava Aldírio Simões, o inesquecível Mané Mor de Florianópolis.
Neném fala dele com nostalgia.
Aldírio não apenas era amigo: fazia questão de abrir espaço para Neném em sua programação cultural e também em seu programa de televisão.
Eram outros tempos.
Tempos em que aparecer na televisão significava muito.
Tempos em que uma conversa no Mercado podia render uma amizade para a vida inteira.
Tempos em que os personagens da cidade eram conhecidos não por seguidores ou curtidas, mas pelo carinho que conquistavam nas ruas.
DA VELHA FLORIPA PARA A ARGENTINA
A voz que começou naquele banquinho de madeira também atravessou fronteiras.
Em 2012, Neném esteve em turnê pela Argentina, passando por Buenos Aires e Rosário.
Um capítulo internacional de uma carreira que nasceu nas ruas e nos espaços populares de Florianópolis.
E ELE AINDA ESTÁ LÁ...
Talvez uma das coisas mais bonitas dessa história seja saber que ela não terminou.
Neném continua presente.
Todas as quintas-feiras, quem passa pelo Balcão Mané, no Mercado Público, antigo espaço da Friambeiria do Alvim Spinoza, pode encontrar aquela figura conhecida, sempre pronta para uma conversa, uma lembrança, uma história ou simplesmente um sorriso.
Com sua educação, sua simpatia e uma memória que parece guardar capítulos inteiros da cidade, Neném continua contagiando quem chega.
E é impossível conversar com ele sem perceber que, por trás daquele cantor, existe um verdadeiro arquivo vivo de Florianópolis.
Ele viu a cidade mudar.
Viu lugares desaparecerem.
Viu personagens partirem.
Viu o Carnaval se transformar.
Viu novas gerações chegarem.
Mas algumas coisas permaneceram.
A amizade.
A música.
E o amor por Floripa.
52 ANOS DEPOIS...
Hoje, Neném divide sua rotina entre o trabalho na Fundação Franklin Cascaes e suas apresentações.
Aposentado de uma longa trajetória profissional, continua trabalhando e, principalmente, continua cantando.
Porque talvez a música nunca tenha sido apenas um trabalho para ele.
Talvez tenha sido sua maneira de permanecer ligado às pessoas.
Aos 74 anos, Neném Maravilha olha para trás e encontra uma vida inteira de histórias.
Do menino do Morro da Mariquinha ao cantor do Bloco Eu Sou Mais Eu.
Dos peixes que buscava no Mercado Público ao banquinho de madeira que virou seu primeiro palco.
Dos Correios ao BESC.
Do BESC à Fusesc.
Dos sambas e carnavais às noites de Floripa.
De Aldírio Simões aos tantos amigos que a vida lhe deu.
Do Mercado Público aos palcos da Argentina.
E, depois de tudo isso, ele continua ali.
No Mercado.
Entre amigos.
Entre histórias.
Entre uma lembrança e outra.
Cantando.
UMA MEMÓRIA VIVA DA CIDADE
Talvez seja por isso que Neném Maravilha seja tão querido.
Porque ele não canta apenas músicas.
Ele canta lembranças.
Cada encontro traz um pedaço da Florianópolis que muitos conheceram e que hoje só existe na memória.
A Florianópolis do Miramar.
Do antigo Mercado.
Dos blocos de Carnaval.
Dos bares.
Dos personagens.
Das amizades.
Da boemia.
Uma Florianópolis que não volta mais, mas que continua viva na voz de quem esteve lá.
E Neném esteve.
Viveu.
Cantou.
Trabalhou.
Amou.
Fez amigos.
E ajudou, com sua voz e sua presença, a construir a memória afetiva de uma cidade inteira.
Aos 74 anos, Dijalma Rita, o nosso Neném Maravilha, continua cantando.
E enquanto ele cantar, uma parte da velha Floripa continuará também.
Porque algumas pessoas não passam pela história de uma cidade.
Elas se tornam parte dela.



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