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Florianópolis,23/04/2026

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Jorge Campos

Santa Catarina e a Flórida após o choque tarifário: os efeitos já aparecem no comércio catarinense

Quem ganhou e quem perdeu nesse inicio de 2026

porto de itajai
Santa Catarina e a Flórida após o choque tarifário: os efeitos já aparecem no comércio catarinense

Se no primeiro artigo a preocupação era interpretar o risco das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos, agora o cenário mudou. Em 2026, já não se trata apenas de projetar impactos possíveis. Os efeitos começaram a aparecer de forma concreta nos números da economia catarinense.

Os dados mais recentes da Federação das Indústrias de Santa Catarina mostram que o estado exportou US$ 2,7 bilhões no primeiro trimestre de 2026, resultado 2,6% menor do que o registrado no mesmo período do ano passado. O dado mais expressivo, porém, está na relação com os Estados Unidos: as vendas catarinenses ao mercado americano caíram 44,6% no acumulado até março. Para a própria FIESC, o tarifaço adotado pelos EUA está entre os fatores que ajudam a explicar esse desempenho.

A deterioração não surgiu de uma vez. Em janeiro, Santa Catarina já havia registrado queda de 3,7% nas exportações, somando US$ 815,4 milhões, com recuo de 43% nas vendas aos Estados Unidos. No primeiro bimestre, a retração seguiu: o estado embarcou US$ 1,697 bilhão ao exterior, 4,1% abaixo do mesmo período de 2025, enquanto os embarques para os EUA caíram 38,1%. O movimento mostra que a perda de tração no mercado americano não foi pontual, mas parte de uma tendência que se consolidou ao longo do trimestre.

O ponto mais importante dessa nova fase é que o impacto não foi igual para todos os setores. Alguns segmentos conseguiram resistir ou até crescer. As exportações de carne de aves avançaram 9,1% no trimestre, chegando a US$ 633,3 milhões, enquanto a carne suína somou US$ 425 milhões, alta de 6,9%. Também houve crescimento em motores elétricos, transformadores elétricos e máquinas agrícolas. Isso mostra que parte da pauta exportadora catarinense manteve competitividade mesmo em um ambiente externo mais duro.

Em outros setores, porém, o efeito foi bem mais severo. Madeira serrada caiu 6,7%, partes de motor recuaram 22,8%, outros móveis despencaram 39,7% e obras de carpintaria para construção encolheram 42,7%. Esses números indicam que a pressão comercial não afeta Santa Catarina de forma homogênea. Ela atinge com mais força justamente os segmentos mais expostos ao mercado americano e mais dependentes de estabilidade regulatória e previsibilidade de acesso.

É nesse ponto que a Flórida continua estratégica. No primeiro texto, ela aparecia como elo relevante entre Santa Catarina e os Estados Unidos. Agora, essa função fica ainda mais clara. Segundo o USTR, o Brasil foi o principal destino das exportações da Flórida em 2025, com US$ 6,0 bilhões em bens, o equivalente a 8% das exportações estaduais. Isso confirma que o eixo Flórida–Brasil continua estrutural para o comércio regional e ajuda a explicar por que o estado americano segue sendo peça importante para empresas catarinenses que buscam manter presença no mercado norte-americano.

Mas a leitura da Flórida em 2026 precisa ir além da ideia de destino comercial. Em um ambiente de maior atrito tarifário e política comercial mais agressiva por parte de Washington, a Flórida ganha importância como plataforma logística, empresarial e de redistribuição. O relatório de política comercial de 2026 do USTR deixa claro que os Estados Unidos estão operando sob uma agenda de reciprocidade, correção de desequilíbrios e fortalecimento produtivo doméstico. Nesse contexto, pontos de entrada com forte conexão latino-americana passam a ter valor ainda maior.

O que os números da FIESC mostram, portanto, não é o fim da relevância do mercado americano para Santa Catarina. Mostram algo mais complexo: os Estados Unidos continuam essenciais, mas se tornaram mais instáveis; a Flórida continua importante, mas menos como mercado passivo e mais como base de adaptação; e Santa Catarina continua competitiva, embora agora mais dependente de inteligência setorial e capacidade de reposicionamento.

Se no primeiro artigo o foco era o risco, neste segundo o foco é o efeito. E o efeito mais importante de 2026 talvez nem seja apenas a queda das exportações, mas a confirmação de que a relação entre Santa Catarina, Flórida e Estados Unidos entrou em uma fase mais seletiva, mais sensível e mais estratégica do que antes. 



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