Artigo
Entre o ruído e a responsabilidade
Há uma carência evidente no debate público contemporâneo que vai além de ideologias, partidos ou agendas: falta postura. Em um ambiente marcado pela polarização, pela comunicação performática e pela busca incessante por manchetes, o comportamento público passou a valer mais do que o conteúdo. Nesse cenário, a trajetória de Zico emerge como um contraponto raro — não por aquilo que ele defende, mas pela forma como sempre se colocou diante do espaço público.
Zico construiu sua vida profissional apoiado em valores pouco ruidosos, porém sólidos: disciplina, coerência, respeito ao coletivo e responsabilidade com a palavra. Em um tempo que premia reações imediatas e discursos inflamados, sua história lembra que autoridade não se constrói no confronto permanente, mas na consistência acumulada ao longo do tempo. O talento foi apenas o ponto de partida; o que sustentou sua trajetória foi método, preparo e autocontenção.
Esse traço tornou-se especialmente visível em episódios recentes. Foi indagado em entrevista acerca de um conteúdo produzido por uma jornalista, em um contexto claramente orientado ao embate e à provocação. A expectativa era a reação, a frase forte, o conflito convertido em manchete. A resposta, porém, foi serena, firme e respeitosa. Zico não atacou, não se esquivou e não elevou o tom. Delimitou sua posição com clareza, sem transformar a divergência em espetáculo. Em um ambiente em que o ruído costuma ser confundido com coragem, o gesto revelou algo cada vez mais raro: lucidez.
O paralelo com a política é inevitável. O debate público atual sofre menos por falta de opinião e mais por excesso de performance. Perguntas são feitas para provocar, respostas são dadas para repercutir, e o conteúdo acaba subordinado ao impacto. A lógica do embate substitui a lógica da construção. Nesse contexto, o exemplo de Zico expõe uma falha estrutural: confundiu-se firmeza com agressividade e posicionamento com ataque.
Sua trajetória também reforça a importância da coerência entre vida pessoal, carreira e atuação pública. Ao preservar suas origens, sua família e sua identidade, mesmo sob exposição constante, ele reafirma que equilíbrio emocional não é detalhe, mas estrutura. Estruturas sólidas produzem decisões melhores, relações mais estáveis e trajetórias mais duradouras — no esporte, na política e em qualquer esfera de liderança.
Não se trata de idealizar personagens nem de sugerir transposições ingênuas do esporte para a política. Trata-se de reconhecer que a sociedade carece de referências éticas de comportamento público. Figuras que compreendam o peso da palavra, o valor do silêncio estratégico e a responsabilidade de influenciar sem incendiar.
Nesse sentido, Zico ocupa um lugar que não buscou, mas que se impõe pela coerência de sua trajetória. Seu exemplo aponta para uma necessidade urgente do nosso tempo: menos urgência por manchete, mais compromisso com o debate e com as realizações. Menos ruído, mais responsabilidade.
Eduardo Sardá
Ex-Secretário Municipal de Florianópolis



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