Tarcíbulo Serratine Neto
Hélio Lange, o Paruzinho: uma vida entre histórias, personagens e memórias de Florianópolis.
Do menino que nasceu ao lado da Catedral Metropolitana ao escritor que transformou personagens, lembranças e acontecimentos da nossa terra em livros. Agora, Hélio Ricardo Lange volta às suas próprias raízes para contar, em um Gibi Histórico, a história de seu bisavô, o pastor Wilhelm Gottfried Lange
Há pessoas que passam pela história de uma cidade.
E há pessoas que, de alguma maneira, ajudam a contar a história dessa cidade.
Hélio Ricardo Lange, o nosso conhecido Paruzinho, pertence à segunda categoria.
Manezinho de nascimento, de criação e, sobretudo, de coração, Hélio nasceu em Florianópolis no dia 8 de fevereiro de 1951, na Rua Arcipreste Paiva, praticamente aos pés da Catedral Metropolitana. Cresceu respirando a cidade, conhecendo seus personagens, suas histórias, seus costumes e aquele jeito muito particular de ser que só quem vive Florianópolis conhece.
E talvez esteja justamente aí a explicação para uma característica que acompanha sua trajetória: a curiosidade pelas pessoas e pelas histórias que existem por trás delas.
Ao longo dos anos, Hélio foi reunindo lembranças, personagens, acontecimentos e pequenas histórias que, muitas vezes, poderiam simplesmente desaparecer com o passar do tempo.
Mas Paruzinho resolveu fazer diferente.
Escreveu.
Registrou.
Publicou.
E transformou memórias em livros.
UM MANEZINHO QUE FEZ DA MEMÓRIA UMA VOCAÇÃO
A vida profissional de Hélio Ricardo Lange também está intimamente ligada à Capital.
Foram quase quatro décadas dedicadas à Câmara Municipal de Florianópolis, onde ingressou ainda jovem e construiu uma trajetória que o levou a exercer funções de responsabilidade, inclusive como diretor legislativo.
Mas, enquanto a vida profissional seguia pelos corredores do Legislativo, outro Hélio também ia se construindo.
O escritor.
O cronista.
O pesquisador de personagens.
O contador de histórias.
Paruzinho começou a colocar no papel aquilo que conhecia como poucos: Florianópolis e seus moradores.
E não apenas os grandes nomes.
Muito pelo contrário.
Seu olhar sempre pareceu encontrar graça, importância e significado justamente naquelas histórias que fazem uma cidade ser uma cidade.
Vieram livros, crônicas, lembranças e personagens.
Entre suas obras está Pelo Orbe da Urbe, publicado em 2019, além de outros trabalhos que revelam essa relação afetiva do autor com pessoas, lugares e acontecimentos.
E talvez seja exatamente essa sua maior característica como escritor:
Paruzinho não escreve apenas sobre fatos. Ele escreve sobre pessoas.
E QUANDO A HISTÓRIA ESTÁ DENTRO DA PRÓPRIA FAMÍLIA?
É aí que nossa história começa a ganhar um capítulo ainda mais especial.
Porque, por trás do Hélio Ricardo Lange que conhecemos das rodas de conversa, dos livros e das histórias da velha Florianópolis, existe uma árvore genealógica que guarda um personagem de enorme importância para a história de Santa Catarina.
Seu bisavô.
Pastor Wilhelm Gottfried Lange.
Nascido em Derwitz, na antiga região de Brandemburgo, Alemanha, em 22 de março de 1858, Wilhelm Gottfried Lange teve uma trajetória que parece saída de um romance histórico.
Formado na tradição dos Irmãos Morávios, foi ordenado pastor em Herrnhut e atuou em comunidades da Europa antes de chegar ao Brasil.
Em 1886, liderou um grupo de 111 imigrantes vindos de regiões da Alemanha e da Rússia em direção a Santa Catarina.
O objetivo não era simplesmente encontrar uma nova terra.
Era construir uma nova vida.
Uma comunidade onde pudessem viver sua fé e organizar sua existência comunitária com liberdade.
Foi assim que nasceu Brüderthal — o Vale dos Irmãos — atualmente território de Guaramirim.
Pastor Lange deixou marcas profundas na história religiosa e comunitária catarinense. Mais tarde, também atuou em outras comunidades, inclusive em Brusque.
Faleceu em Timbó, em 1930, aos 72 anos.
UMA HISTÓRIA QUE ATRAVESSOU GERAÇÕES
E aqui está uma das partes mais fascinantes dessa história.
A trajetória do pastor Wilhelm não ficou apenas nos livros de história.
Ela atravessou gerações.
Chegou até Hélio.
E agora, pelas mãos do próprio descendente, volta a ganhar vida.
A história do pastor já havia sido objeto de pesquisas e publicações de Saulo Adami, que dedicou extensa investigação à trajetória de Wilhelm Gottfried Lange e à formação de Brüderthal.
Em 2026, dentro das comemorações dos 140 anos da comunidade, Saulo Adami lançou a obra Brüderthal – Pastor Wilhelm Gottfried Lange e os primórdios da Igreja Morávia no Brasil, reunindo documentos, mapas, fotografias e registros históricos relacionados ao pastor e aos primeiros imigrantes.
A pesquisa revela inclusive um episódio extraordinário envolvendo os escritos deixados por Wilhelm.
Durante o período da nacionalização, documentos em alemão corriam o risco de ser destruídos. Manuscritos do pastor chegaram a ser escondidos pela própria família, sendo posteriormente recuperados e preservados.
Ou seja: uma memória que quase desapareceu acabou sobrevivendo para contar a história de várias gerações.
AGORA, A HISTÓRIA VIRA GIBI
E é justamente nesse ponto que chegamos à novidade que motivou esta nossa conversa.
Hélio Ricardo Lange, o Paruzinho, apresenta um Gibi Histórico dedicado ao seu bisavô, o pastor Wilhelm Gottfried Lange.
A proposta é transformar uma história familiar — que também é parte da história de Santa Catarina — em uma linguagem capaz de aproximar esse passado das novas gerações.
E a iniciativa ganha ainda mais força porque Hélio não estará sozinho nessa missão.
O escritor e pesquisador Saulo Adami participa do projeto, ajudando a construir essa ponte entre memória familiar, pesquisa histórica e linguagem acessível.
É uma combinação interessante:
De um lado, o descendente que carrega a história no próprio sangue.
Do outro, o pesquisador que mergulhou em documentos, registros e fontes para reconstruir a trajetória daquele personagem.
E, no meio de tudo isso, uma história que começou há 140 anos e ainda tem muito a dizer.
DE BRÜDERTHAL PARA FLORIANÓPOLIS — E DE FLORIANÓPOLIS PARA O FUTURO
Talvez exista uma simbologia bonita em tudo isso.
Wilhelm Gottfried Lange atravessou o oceano no século XIX para construir uma nova vida em Santa Catarina.
Seu bisneto, décadas depois, passou boa parte da vida registrando histórias de sua cidade e de seus personagens.
Agora, Hélio Ricardo Lange volta às próprias raízes para contar a história daquele que veio antes dele.
É como se a memória tivesse dado uma volta completa.
Do bisavô para o bisneto.
Da Alemanha para Santa Catarina.
De Brüderthal para Florianópolis.
E, agora, das páginas da história para as páginas de um gibi.
Porque preservar a memória não significa apenas olhar para trás.
Significa garantir que aqueles que ainda estão por vir possam conhecer os personagens que ajudaram a construir aquilo que somos hoje.
E, neste caso, o Paruzinho tem uma vantagem que poucos escritores possuem:
Ele não está apenas contando uma história.
Ele está contando a história de onde veio.
E isso, meus amigos, torna tudo ainda mais especial.
UM PRESENTE QUE VAI ALÉM DAS PÁGINAS
E antes de encerrar esta viagem pela história de Hélio Ricardo Lange e de seu bisavô, quero registrar algo muito especial.
Este colunista agradece, com muito carinho, ao amigo e autor Hélio Ricardo Lange, o nosso querido Paruzinho, pelo exemplar recebido, que chegou até mim acompanhado de uma carinhosa dedicatória.
Mais do que receber um livro, receber uma obra assim, diretamente das mãos de quem ajudou a transformar uma história familiar em memória registrada, é um daqueles presentes que guardamos não apenas na estante, mas também na lembrança.
Fica aqui, portanto, meu abraço, meu agradecimento e, principalmente, meu reconhecimento pela iniciativa de preservar e compartilhar uma parte tão importante da nossa história.
Que este Gibi Histórico encontre muitos leitores e cumpra justamente aquilo que toda boa história deve fazer:
manter viva a memória e despertar nas novas gerações a vontade de conhecer o passado.

Pastor Wilhelm Gottfried Lange



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