Tarcíbulo Serratine Neto
Evento nacional de gestão do Carnaval acontece em Florianópolis e, mais uma vez, chama atenção a ausência de algumas escolas da Capital
Florianópolis vem se consolidando como palco de grandes eventos nacionais ligados ao samba e ao Carnaval. No último fim de semana, a Capital recebeu, pela primeira vez, o Carnaval LAB, evento dedicado a discutir inovação, formação e sustentabilidade para as escolas de samba.
Realizado durante as tardes de sábado e domingo, no Centro Integrado de Cultura (CIC), o encontro foi criado por Pedro Silva, profissional com 15 anos de experiência em comunicação, Carnaval e economia criativa.
Durante os dois dias, especialistas de diferentes setores ligados à gestão do Carnaval estiveram em Florianópolis para apresentações e rodas de conversa sobre os desafios e os caminhos para a profissionalização das agremiações.
Entre os convidados esteve Júlia Rodrigues, diretora de projetos especiais da Unidos de Vila Isabel, profissional de marketing, gestão e negócios, com passagem pela Beija-Flor de Nilópolis. Também participaram Júnior Schall, com mais de 30 anos de experiência em direção de Carnaval; Wallace Palhares; Historiador e gestor de Carnaval; Diogo Carbonell e Branco Ribeiro, desenvolvedor do Carna.app, plataforma que integra dados, equipes e processos para modernizar a gestão das escolas de samba, além de outros.
Liderança feminina e encontro de gerações
O evento também colocou em evidência histórias marcantes de mulheres no Carnaval. Tatiana Sousa, primeira mulher a presidir a Liga das Escolas de Samba de Florianópolis, teve espaço de fala.
O encontro reuniu diferentes gerações e experiências da presença feminina no samba, como Solange Cruz, que preside a Mocidade Alegre, de São Paulo, há 22 anos e acumula 13 títulos, e Lara Mara, presidente da Unidos de Padre Miguel, do Rio de Janeiro, e a mais jovem presidente de uma escola de samba do Brasil, aos 21 anos.
Também participou Valeska Reis, rainha de bateria da Mocidade Unida da Mooca, de São Paulo, e empreendedora.
A presença delas mostrou diferentes formas de atuação e liderança feminina no Carnaval brasileiro, reunindo experiência, renovação, empreendedorismo e protagonismo dentro das escolas de samba.
Gestão, profissionalização e dinheiro para o Carnaval
Mais do que discutir o desfile, o Carnaval LAB trouxe para Florianópolis uma reflexão sobre o futuro das escolas de samba.
Pedro Silva foi direto ao defender a profissionalização das agremiações:
“Não existem mais condições de uma escola de samba não se profissionalizar para ter uma gestão adequada aos tempos atuais.”
Para Pedro, a profissionalização também está diretamente ligada à capacidade de buscar recursos. Segundo ele, existe uma quantidade significativa de dinheiro disponível para ser investida no Carnaval, seja por meio de projetos de incentivo à cultura, seja através da iniciativa privada.
O problema, segundo o fundador do Carnaval LAB, está na falta de capacitação e de profissionais preparados dentro das escolas para elaborar projetos, identificar oportunidades e buscar esses recursos.
Ou seja: há dinheiro disponível, mas é preciso saber onde buscar e ter profissionais capacitados para transformar oportunidades em recursos que efetivamente cheguem às agremiações.
Ao abordar a comunicação das escolas, Pedro criticou modelos ainda comuns de colocar funções estratégicas nas mãos de pessoas sem qualificação específica, citando como exemplo a situação em que a comunicação e as redes sociais ficam sob responsabilidade do filho do presidente, que “entende um pouquinho de ChatGPT e Canva”.
A provocação resume uma das principais discussões do evento: o Carnaval mudou, e a gestão das escolas também precisa acompanhar essa transformação.
Captação de recursos, marketing, comunicação, tecnologia, planejamento, sustentabilidade e gestão de pessoas passaram a ser elementos fundamentais para a continuidade das agremiações.
Júlia Rodrigues também trouxe uma reflexão sobre gestão de pessoas pensando no futuro das escolas.
Ao falar sobre a experiência do Rio de Janeiro com a criação das escolas de samba mirins e dos desfiles voltados às crianças, destacou a importância de, ao mesmo tempo, manter e valorizar as crianças que já estão dentro das agremiações e criar estratégias para atrair aquelas que ainda não conhecem esse universo.
A proposta é garantir a renovação das escolas, preservando a ancestralidade e a tradição, mas também criando caminhos para que uma nova geração conheça, participe e passe a fazer parte do Carnaval.
Uma ausência que chamou atenção
E foi justamente em um evento voltado à gestão e ao futuro das escolas que outro assunto acabou ganhando espaço: a ausência de representantes de algumas escolas de samba de Florianópolis.
É importante fazer uma distinção. Algumas escolas da Capital estiveram presentes. A questão levantada aqui diz respeito àquelas que, mesmo convidadas para um evento gratuito, realizado dentro da própria cidade, novamente não enviaram representantes ou tiveram participação considerada insuficiente.
Durante a roda de conversa do domingo, o carnavalesco da Consulado, Raphael Soares, convidado também como palestrante, chamou atenção para a ausência notória de integrantes da gestão da maioria das escolas da Capital.
O assunto ganhou outros apartes. O comunicador de Carnaval Matheus Losso também se manifestou, assim como este colunista.
Na mesma roda de conversa estava Joel da Costa Júnior, ex-presidente da Liga das Escolas de Samba de Florianópolis, atual presidente da União da Ilha da Magia e presidente da Associação das Ligas de Carnaval de Santa Catarina.
Em determinado momento, Joel pediu que os participantes que haviam vindo de outras cidades se levantassem. A cena acabou evidenciando ainda mais a situação: representantes de outras cidades eram maioria no auditório.
Haviam participantes de ligas de diferentes regiões de Santa Catarina, incluindo Laguna, Joinville, Joaçaba e outras praças.
Joel perguntou ao representante da Liga de Joaçaba quanto tempo havia levado para chegar a Florianópolis. A resposta foi: seis horas.
A comparação feita na sequência foi inevitável. Enquanto um representante havia viajado seis horas para participar do evento, havia escolas de samba de Florianópolis que, partindo do próprio local onde o Carnaval LAB era realizado, poderiam chegar em poucos minutos — algumas, segundo a observação feita por Joel, em cerca de seis minutos de caminhada.
Pedro Silva, fundador do Carnaval LAB, tratou a situação com elegância e diplomacia. Observou que, por se tratar de um evento voltado à gestão, seria até curioso imaginar o auditório completamente lotado ou quase lotado,.já que se tratava de um encontro para gestores.
Mesmo assim, sendo dez escolas em Florianópolis, se cada uma enviasse dois representantes, estaríamos falando em vinte participantes no evento só da Capital, fora pessoas de outros seguimentos das agremiações.
A escola de samba é o ano inteiro
Joel da Costa Júnior também fez uma reflexão sobre a maneira como as escolas são administradas.
Segundo ele, a maioria dos presidentes ainda pensa principalmente no desfile de Carnaval, quando, na verdade, o desfile deveria ser encarado como a festa de encerramento de todo um trabalho realizado ao longo do ano.
“A maioria dos presidentes só pensam no desfile de Carnaval "
Mas o desfile é a festa de final de ano, resultado de todo um trabalho realizado durante o ano inteiro.”

Joel costa Jr, Tatiana Sousa, Lara Mara, Solange Cruz e Pedro Silva
A escola de samba, portanto, não existe apenas para desfilar uma vez por ano.
Ela carrega ancestralidade. É espaço de formação, criação, convivência e preservação cultural. É, como a própria palavra sugere, uma escola.
Joel também chamou atenção para uma diferença importante: escolas de samba não podem ser tratadas simplesmente como empresas. Uma empresa que enfrenta uma crise sem solução pode encerrar suas atividades. Uma escola de samba não deveria ter esse destino, porque representa uma história, uma comunidade e uma manifestação cultural.
Profissionalizar a gestão, nesse sentido, não significa retirar das escolas sua essência cultural. Significa criar condições para que essa essência continue existindo.
Florianópolis está recebendo o Carnaval nacional
O episódio do Carnaval LAB precisa ser observado dentro de um contexto maior.
Florianópolis vem se tornando um polo de grandes eventos nacionais relacionados ao samba.
Em 2024 e 2025, a cidade recebeu duas edições da FenaSamba. Agora, pela primeira vez, recebeu o Carnaval LAB.
São três grandes oportunidades, em um curto espaço de tempo, para que dirigentes, gestores, carnavalescos e integrantes das escolas da Capital tenham contato com profissionais, experiências e discussões que, em outras circunstâncias, exigiriam viagens para outros estados.
Enquanto outras cidades se colocam à disposição para sediar eventos dessa dimensão, Florianópolis já está recebendo esse conteúdo dentro de casa.
E esse talvez seja o ponto que mais merece reflexão.
Não se trata de cobrar que todas as escolas estejam em todos os eventos. Tampouco de ignorar aquelas que efetivamente participaram do Carnaval LAB.
A questão é outra: como uma cidade que possui dez escolas de samba pode aproveitar melhor o fato de estar se tornando sede de eventos nacionais de formação, gestão e inovação do Carnaval?
Se cada uma das dez escolas enviasse apenas duas pessoas responsáveis pela gestão, já haveria uma participação significativa no auditório.
Não estamos falando de uma viagem para outro estado. Não estamos falando de seis horas de estrada. Estamos falando de eventos realizados em Florianópolis, muitas vezes praticamente à porta das próprias escolas.
E aqui está o ponto que não pode ser ignorado: a ausência de algumas escolas em eventos nacionais realizados na própria cidade já não parece ser um episódio isolado.
As duas edições da FenaSamba, realizadas em Florianópolis em 2024 e 2025, também registraram, segundo os relatos feitos durante o Carnaval LAB, a baixa presença de integrantes das escolas da cidade-sede.
Florianópolis está conquistando espaço como palco nacional do samba. A cidade já demonstrou que tem capacidade para receber grandes encontros, reunir especialistas e colocar o Carnaval catarinense em contato com experiências de outras regiões do país.
Agora, cabe às escolas da Capital perceberem que esse movimento também pode ser uma oportunidade para elas.
Porque o futuro de uma escola de samba não começa na avenida.
Começa muito antes: na gestão, no planejamento, na formação, na capacidade de buscar recursos, na comunicação, na inovação e na compreensão de que uma escola de samba não vive apenas para o desfile.
O desfile é a festa. A escola é o ano inteiro.

Júlia Rodrigues

@redenossaotica



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