Tarcíbulo Serratine Neto
Koerich mostra a força de uma marca catarinense enquanto gigante nacional fecha lojas e entra em recuperação judicial
Em um momento de transformação no varejo brasileiro, a trajetória das Lojas Koerich chama atenção pela tradição, pela proximidade com o consumidor e pela força de uma empresa genuinamente catarinense
No varejo, tamanho nem sempre significa força. Em Santa Catarina, uma história construída com trabalho, proximidade e conhecimento do consumidor local mostra que é possível crescer, enfrentar grandes concorrentes e permanecer fiel às próprias raízes.
É o caso das Lojas Koerich, uma das marcas mais tradicionais do Estado e uma das poucas grandes redes varejistas genuinamente catarinenses.
A história da empresa começou em 1955, a partir do trabalho do patriarca da família, Eugênio Raulino Koerich. Ao longo das décadas, a família construiu uma trajetória marcada pelo empreendedorismo e pela diversificação. Em 1993, após a divisão dos negócios familiares, as Lojas Koerich passaram a se dedicar exclusivamente ao comércio de móveis e eletroeletrônicos, consolidando a marca na memória dos catarinenses.
Hoje, a empresa ultrapassa a marca de 130 lojas em Santa Catarina e alcançou faturamento na casa de R$ 1,5 bilhão, mantendo sua estratégia de crescimento concentrada no Estado.
UMA EMPRESA QUE PASSA DE GERAÇÃO PARA GERAÇÃO
Outro ponto que chama atenção na trajetória do Koerich é a continuidade familiar.
Atualmente, a administração da empresa reúne três gerações da família.
À frente está o fundador da rede de lojas, Antonio Koerich, ao lado de seus filhos Ronaldo Koerich e Sérgio Koerich. A terceira geração também já participa ativamente dos negócios, com os netos Eduardo e Rafael Koerich integrando o dia a dia da empresa.
Mais do que uma questão familiar, essa sucessão representa uma estratégia de continuidade. A experiência de quem ajudou a construir a marca se soma às novas ideias e à visão das novas gerações.
É tradição e renovação caminhando lado a lado.
UMA HISTÓRIA QUE TAMBÉM FAZ PARTE DA MINHA
E falar da Koerich também é, de certa forma, falar de uma parte da minha própria história profissional.
Este colunista,se orgulha de ter feito parte do quadro de vendas das Lojas Koerich no início dos anos 90.
Foi uma época de muito aprendizado, contato direto com o consumidor e experiências que ficaram marcadas na minha trajetória.
Por isso, acompanhar hoje a força que a marca continua demonstrando tem um significado ainda mais especial.
Não é apenas uma grande empresa catarinense.
É também uma empresa que fez parte da história profissional de milhares de pessoas e da vida de milhares de famílias que, ao longo das décadas, entraram em suas lojas para comprar seu primeiro móvel, seu eletrodoméstico, renovar a casa ou simplesmente realizar um sonho.
ENQUANTO ISSO, UM GIGANTE NACIONAL FECHA AS PORTAS
O cenário é bastante diferente para uma das maiores redes varejistas do país.
O Grupo Casas Bahia entrou nesta segunda-feira (17) com pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo. A companhia declarou dívidas de aproximadamente R$ 17,3 bilhões e anunciou um amplo processo de reestruturação.
Entre as medidas previstas está o fechamento de 298 lojas, além da redução do quadro de funcionários. A companhia também registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026.
A notícia impressiona pelo tamanho da operação e pela presença histórica que a marca construiu em todo o Brasil.
São milhares de trabalhadores, fornecedores e consumidores envolvidos em uma das maiores reestruturações recentes do varejo brasileiro.
DOIS CAMINHOS, DOIS MOMENTOS
O contraste entre Koerich e Casas Bahia não significa que uma empresa esteja livre dos desafios do varejo ou que a outra esteja deixando de existir.
A recuperação judicial é justamente um mecanismo criado para permitir que empresas em dificuldades financeiras reorganizem suas dívidas e busquem condições para continuar operando.
Mas o momento serve, sim, para uma reflexão sobre os diferentes caminhos adotados no varejo.
Enquanto uma gigante nacional precisa reduzir sua estrutura, fechar centenas de unidades e reorganizar suas finanças, uma empresa catarinense segue apostando na expansão dentro do próprio território.
E talvez esteja justamente aí uma das grandes forças do Koerich.
Conhecer o seu mercado. Conhecer o seu consumidor. Conhecer as suas cidades.
A estratégia de permanecer em Santa Catarina não impediu o crescimento. Pelo contrário.
A empresa transformou o conhecimento do mercado regional em uma vantagem competitiva, mantendo uma relação próxima com seus clientes e investindo na evolução de seus canais de venda e na modernização da operação.
GENTE BOA, GENTE NOSSA
A história do Koerich também mostra que uma marca pode crescer sem perder a identidade.
São décadas acompanhando as transformações de Santa Catarina, entrando na casa dos catarinenses e participando de momentos importantes da vida de muitas famílias.
E talvez seja justamente essa proximidade que explique por que a marca permanece tão presente na memória afetiva de seus consumidores.
Em tempos de grandes redes nacionais enfrentando dificuldades e revendo seus modelos de negócios, a trajetória do Koerich reforça uma velha lição do comércio:
quem conhece seu cliente, valoriza sua equipe e não esquece suas raízes pode construir uma história que atravessa gerações.
Do fundador aos filhos. Dos filhos aos netos. De uma geração para outra.
Uma história que começou em Santa Catarina e continua sendo escrita por catarinenses.
E para quem, como este colunista, que teve a oportunidade de vestir a camisa da empresa e fazer parte do seu time de vendas ainda no início dos anos 90, acompanhar essa trajetória é também motivo de orgulho.
Porque algumas marcas são maiores do que seus números.
Elas fazem parte da história de um povo, de suas cidades e de suas famílias.
Afinal de contas, Koerich é gente nossa!



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