Kelly Corrêa
Pai também educa para a sexualidade — mesmo quando não fala sobre sexo
No Dia dos Pais, é oportuno lembrar que a educação sexual dos filhos começa muito antes da primeira conversa sobre sexo. E a presença paterna é decisiva nesse processo.
Há uma conversa que muitos pais ainda evitam.
À medida que os filhos crescem, surgem dúvidas sobre corpo, namoro, desejo, pornografia, relacionamentos, prevenção, limites e sexualidade. Diante desse cenário, parte dos pais espera que a escola assuma o tema. Outros acreditam que o assunto será compreendido “no tempo certo”. Há também quem tema que falar sobre sexualidade estimule precocemente o comportamento sexual.
O problema dessa postura é que o silêncio também educa.
Quando a família não fala, outros espaços ocupam esse lugar. A internet, as redes sociais, os amigos e, muitas vezes, a pornografia passam a ser as principais fontes de informação — nem sempre confiáveis, equilibradas ou responsáveis.
Nesse contexto, o papel do pai não começa quando chega a hora de explicar o que é sexo. Ele começa muito antes.
O filho aprende pelo exemplo
A educação sexual não se limita a informações biológicas ou preventivas. Ela envolve valores, limites, respeito e convivência.
Meninos e meninas aprendem sobre relações humanas a partir do ambiente em que vivem. Observam como o pai trata a mãe, como se refere às mulheres, como reage a um “não”, como lida com frustrações e como expressa afeto.
Também aprendem que é possível um homem demonstrar carinho, pedir desculpas, ouvir e expressar sentimentos sem que isso comprometa sua identidade.
Esse conjunto de referências forma a base da compreensão sobre respeito, consentimento e responsabilidade.
O pai não precisa ter todas as respostas
Um dos principais obstáculos para muitos pais é a insegurança diante das perguntas dos filhos.
A boa notícia é que não é necessário ter todas as respostas.
O mais importante é a disponibilidade para conversar.
Dizer que não sabe e buscar a informação junto com o filho, perguntar o que ele já ouviu sobre o assunto e manter um canal aberto de diálogo são atitudes mais relevantes do que respostas prontas.
A adolescência é uma fase de intensas transformações físicas e emocionais, e a qualidade da comunicação familiar tem impacto direto na forma como os jovens lidam com essas mudanças, como aponta o UNICEF em estudos sobre parentalidade na adolescência.
Mais do que grandes conversas pontuais, o que faz diferença são os diálogos frequentes e naturais ao longo do desenvolvimento.
Falar sobre sexo não estimula o sexo
Ainda persiste entre muitos pais a ideia de que abordar sexualidade pode incentivar a prática sexual precoce.
As evidências mostram o contrário.
A educação sexual baseada em informação qualificada contribui para decisões mais seguras, maior uso de métodos de prevenção e redução de comportamentos de risco. A UNESCO destaca que programas de educação sexual não aumentam a atividade sexual entre adolescentes, mas favorecem atitudes mais responsáveis.
Isso não significa transformar a casa em um ambiente de aulas formais, mas sim estar preparado para responder quando o tema surgir.
Se o filho pergunta sobre namoro, fala-se sobre namoro. Se pergunta sobre pornografia, o tema deve ser tratado com seriedade. Se há dúvidas sobre prevenção, o diálogo deve ser claro. Se a questão envolve consentimento, o foco deve ser o respeito.
O essencial é não deixar o filho sem referência.
A responsabilidade na formação dos meninos
A educação de meninos exige atenção especial porque ainda circulam socialmente ideias distorcidas sobre masculinidade.
Expressões como “homem tem que pegar todas”, “não pode demonstrar fraqueza” ou “não é não, mas depende” reforçam comportamentos de risco e relações desequilibradas.
A presença paterna pode atuar justamente na desconstrução dessas mensagens.
É papel do pai reforçar que respeito não é negociável, que consentimento é indispensável, que rejeição não é humilhação e que masculinidade não se mede por conquistas sexuais.
Também é fundamental mostrar que vulnerabilidade, diálogo e responsabilidade fazem parte da maturidade emocional.
O papel do pai na formação das meninas
No caso das meninas, a presença paterna também é determinante.
Ela contribui para a construção da autoestima, da noção de limites e da capacidade de reconhecer relações saudáveis.
Uma filha precisa compreender que seu valor não está condicionado a aprovação externa e que não deve aceitar violência, pressão ou desrespeito.
Mais do que proteção excessiva, o que se espera é formação para autonomia e discernimento.
Responsabilidade também faz parte da conversa
A educação sexual inclui também a compreensão de consequências.
Relações sexuais envolvem aspectos emocionais, físicos e sociais, além de riscos como infecções sexualmente transmissíveis e gravidez não planejada. Por isso, órgãos de saúde recomendam o uso de preservativos e a chamada dupla proteção como forma de prevenção.
Mas responsabilidade não deve ser tratada apenas sob a lógica do medo.
Ela também envolve cuidado com o outro, respeito aos limites, comunicação clara e preservação da intimidade.
Não pressionar, não expor, não compartilhar conteúdos íntimos e não transformar experiências pessoais em exposição pública são aspectos fundamentais dessa formação.
Uma construção contínua
A educação sexual não acontece em um único momento.
Ela se constrói ao longo do tempo, em diferentes situações: nas primeiras perguntas da infância, nas mudanças da puberdade, nos primeiros relacionamentos, nas dúvidas sobre o que se vê na internet e nas conversas informais do dia a dia.
Cada uma dessas situações representa uma oportunidade de orientação.
Nesse processo, o papel do pai vai além de prover e proteger. Ele também forma.
Forma valores, referências e atitudes que influenciam diretamente a forma como os filhos irão se relacionar com o próprio corpo e com o outro.
O que está em jogo
No Dia dos Pais, a reflexão que se impõe não é apenas sobre presença, mas sobre formação.
Que tipo de referência está sendo construída dentro de casa?
Que modelo de homem está sendo transmitido aos filhos?
A educação pelo exemplo, muitas vezes silenciosa, pode ser mais determinante do que qualquer discurso.
E, nesse sentido, o pai participa da educação sexual dos filhos mesmo quando não fala diretamente sobre sexo — porque educa diariamente sobre respeito, limites e responsabilidade.
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Kelly Corrêa
Sexóloga -Terapeuta Sexual
Educadora sexual - escritora e palestrante
@kellycorreaoficial



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