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Florianópolis,19/05/2026

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Kelly Corrêa

Quando a filha vira “mocinha”: como acolher essa nova fase sem romantizar


Quando a filha vira “mocinha”: como acolher essa nova fase sem romantizar

Nesta semana, recebi uma mensagem de uma leitora do Convicção News que dizia algo mais ou menos assim:

“Kelly, como orientar minha filha que menstruou pela primeira vez? Como conversar sobre essa nova fase sem assustar, sem romantizar e sem deixá-la confusa?”


E achei esse pedido tão importante… porque muitas mães carregam exatamente essa mesma dúvida, mas nem sempre conseguem falar sobre ela.

Talvez porque também tenham crescido sem orientação.

Talvez porque aprenderam que menstruar era apenas “coisa de mulher”.

Ou porque nunca tiveram espaço seguro para entender as próprias emoções e mudanças do corpo.

A verdade é que existe um momento silencioso — e profundamente marcante — na vida de uma menina: o dia em que a primeira menstruação chega.

E junto com ela, chegam também dúvidas, emoções, inseguranças e mudanças que muitas vezes essa adolescente ainda nem consegue compreender direito.

Para algumas mães, esse momento é celebrado. Para outras, vem acompanhado de medo sobre como conversar, orientar e acolher sem exageros, sem constrangimentos e sem transformar tudo em um grande drama… ou em um conto de fadas.


Porque a verdade é que menstruar não transforma uma menina em mulher da noite para o dia.

Mas também não é “só uma cólica”.

É o início de uma nova percepção sobre si mesma.

Como sexóloga, educadora sexual e autora do livro Muito Prazer: Quem Comanda Seu Desejo?, dedico parte do meu trabalho a ajudar mulheres e famílias a desenvolverem uma relação mais saudável com o corpo, com as emoções e com a sexualidade desde cedo. E como mãe de adolescente, compreendo profundamente que orientar uma filha nessa fase vai muito além de ensinar sobre absorvente ou ciclo menstrual.

É sobre presença emocional.

Antes de ensinar, é preciso observar.

Antes de explicar, é preciso ouvir.

Muitas meninas não conseguem nomear o que sentem. Elas apenas percebem que o corpo mudou, as emoções ficaram mais intensas, surgiram inseguranças, vergonha, curiosidade ou até comparações com outras meninas. Tudo isso enquanto ainda continuam sendo… meninas.

Talvez um dos maiores erros seja romantizar essa fase dizendo frases como:

“Agora você virou mocinha!”

“Você já é uma mulher!”

Embora pareçam carinhosas, essas falas podem gerar uma expectativa emocional que a adolescente ainda não consegue sustentar. Porque amadurecimento emocional não acontece junto com a menstruação.

O corpo inicia um processo biológico. A mente ainda está em construção.

A menina precisa entender que menstruar não significa precisar agir como adulta, saber tudo sobre feminilidade ou se sentir pronta para experiências emocionais que ainda não fazem sentido para ela.

E é justamente aí que entra o papel da mãe.

Não apenas ensinar sobre o funcionamento do corpo — embora isso também seja importante — mas ajudar essa filha a desenvolver intimidade consigo mesma. Ensinar que o corpo fala. Que existem dias em que ela vai se sentir mais sensível, introspectiva, irritada ou vulnerável. E que hormônios realmente impactam humor, energia, autoestima e até a forma como nos relacionamos com o mundo.

Mas sem transformar isso em sentença.

Sem dizer que “mulher é assim mesmo”.

Sem invalidar emoções reais.

Precisamos ensinar nossas meninas a reconhecer sinais do corpo sem medo e sem vergonha. A entender que autocuidado não é vaidade — é consciência.

Hoje, inclusive, existem aplicativos que podem ajudar adolescentes a conhecerem melhor o próprio ciclo menstrual e perceber padrões emocionais e físicos ao longo do mês. Ferramentas como Clue e Flo podem ser usadas com orientação e diálogo saudável, ajudando essa menina a se perceber melhor — e não apenas controlar datas.

Mais do que monitorar a menstruação, precisamos ensinar nossas adolescentes a entenderem o próprio corpo com menos vergonha e mais consciência.

Perguntas que ajudam a abrir diálogo com sua filha:


* “Como você se sentiu quando menstruou pela primeira vez?”

* “Existe algo nessa fase que está te assustando?”

* “Você sente que consegue conversar comigo sem vergonha?”

* “Você entende que seu corpo está mudando, mas que você ainda pode viver seu tempo de menina?”


Essas perguntas parecem simples, mas criam algo essencial: segurança emocional.

Em uma geração que cresce sendo observada pelas redes sociais, muitas adolescentes começam a acreditar cedo demais que precisam performar feminilidade, maturidade e até sensualidade. Por isso, orientar uma filha nessa fase também significa protegê-la da pressão de parecer mais madura do que realmente é.

A educação sexual começa muito antes da vida sexual.

Ela começa no afeto, na escuta, no acolhimento e na confiança.

Sua filha não precisa de uma mãe perfeita.

Ela precisa de uma mãe disponível.

Uma mulher que consiga dizer:

“Você pode me perguntar.”

“Você não precisa entender tudo agora.”

“Seu corpo está mudando, e eu vou caminhar com você nesse processo.”

Porque no fundo, a primeira menstruação não é apenas sobre sangue.

É sobre identidade.

Sobre pertencimento.

Sobre aprender, aos poucos, a habitar o próprio corpo com menos medo e mais consciência.

E talvez seja justamente isso que nossas meninas mais precisam nessa fase: menos romantização…

e mais verdade acompanhada de acolhimento.


Kelly Corrêa

Sexóloga | Educadora Sexual | Palestrante | Escritora

Autora do livro Muito Prazer: Quem Comanda Seu Desejo?



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