Kelly Corrêa
Eles estão falando… você está entendendo?
A linguagem dos jovens na sexualidade e o desafio dos pais de hoje
Eles não falam com as mesmas palavras que nós.
Mas estão falando o tempo todo.
Crush. Ficante. Match. Nudes. Ghosting. Vácuo. Shippar.
Para muitos pais, essas palavras parecem apenas gírias passageiras, modismos da internet ou “coisa dessa geração”. Mas a verdade é que por trás dessas expressões existe muito mais do que linguagem: existe afeto, desejo, insegurança, pertencimento, exposição e a forma como os jovens estão vivendo seus relacionamentos e descobrindo sua sexualidade.
E talvez o maior erro dos pais seja acreditar que isso não precisa ser entendido.
A nova geração não parou de falar sobre sexualidade — ela apenas mudou a forma de falar.
E é exatamente aí que mora o desafio.
Vivemos em uma era onde a informação chega antes da maturidade emocional. Os adolescentes aprendem sobre relacionamentos, desejo, intimidade e até sexo através das redes sociais, influenciadores, conversas entre amigos e, muitas vezes, da pornografia. Quando isso acontece sem orientação, o risco não está apenas no excesso de informação, mas na ausência de direção.
E eu digo isso não apenas como especialista, mas como mãe.
Sou mãe dessa nova geração. Uma geração que já nasce conectada, que cria códigos próprios, que vive no digital e que muitas vezes expressa sentimentos profundos através de emojis, memes e mensagens rápidas.
E nós, pais, precisamos entender uma coisa urgente: não adianta insistir apenas na linguagem antiga para filhos que vivem uma realidade completamente nova.
Isso não significa perder valores.
Significa aprender a construir pontes.
Quando um adolescente fala sobre “dar match”, ele não está falando apenas sobre um aplicativo. Muitas vezes está falando sobre validação, aceitação e o desejo de ser visto.
Quando fala sobre “ficar”, nem sempre se trata apenas de um beijo. Muitas vezes envolve pertencimento, autoestima e descoberta.
Quando se fala em “nudes”, o assunto deixa de ser apenas curiosidade e passa a ser também responsabilidade, exposição, segurança emocional e consequências reais.
Por isso, educação sexual dentro de casa não pode continuar sendo um tabu.
E aqui cabe uma verdade importante: educação sexual não é ensinar sexo. É ensinar consciência.
É falar sobre corpo, respeito, limites, consentimento, autoestima, proteção e escolhas saudáveis.
É preparar, não controlar.
O problema é que muitos pais ainda esperam “a idade certa” para começar essa conversa. E, na maioria das vezes, quando percebem, o mundo já falou primeiro.
A internet não espera.
As redes sociais não esperam.
A pornografia não espera.
E quando os pais se calam, alguém ocupa esse espaço.
Por isso, mais importante do que ter todas as respostas é construir um ambiente onde as perguntas possam existir.
Os filhos não precisam de pais perfeitos. Precisam de pais presentes.
Precisam sentir que podem perguntar sem medo, sem julgamento e sem vergonha.
Precisam saber que dentro de casa existe acolhimento antes da correção.
Não se trata de vigiar.
Não se trata de censurar.
Se trata de conversar.
Porque no fim, o maior problema não é o que eles estão dizendo.
É quando nós deixamos de ouvir.
E talvez essa seja a pergunta mais importante desta coluna:
Eles estão falando…
você está entendendo?
⸻
Kelly Corrêa
Sexóloga -Terapeuta Sexual - Escritora e Palestrante
@kellycorreaoficial



COMENTÁRIOS