Artigo
Emprego não cura crack: o autoengano das políticas para moradores de rua
Poucas ideiassão tão emocionalmente sedutoras quanto a de “dar emprego para moradores derua”. A proposta soa humana, solidária, civilizada. Apela ao nosso melhorinstinto moral e, justamente por isso, costuma ser recebida com aplausosimediatos. Quem, em sã consciência, ousaria se opor a uma iniciativa quepromete dignidade, renda e reinserção social para quem vive nas ruas?
O problemacomeça quando confundimos boas intenções com bons resultados.
Projetosdesse tipo se multiplicam pelo Brasil exatamente na mesma proporção em quecresce a população em situação de rua. Florianópolis não é exceção. Pelocontrário: repete um roteiro já testado dezenas de vezes em outras cidades. Apergunta que raramente é feita é simples e incômoda: se essas políticasfuncionassem, por que o problema só aumenta?
A respostaexige abandonar o conforto das narrativas fáceis e encarar a realidade como elaé. A principal causa da permanência das pessoas nas ruas hoje não é a falta deoportunidade de emprego. É a dependência química, especialmente de crack edrogas semelhantes. Ignorar esse fato não é compaixão, é autoengano.
Acreditar queum dependente químico severo conseguirá manter estabilidade profissional é umafantasia. Pode até aceitar o emprego em um momento de maior lucidez, nosprimeiros dias ou semanas. Mas quando a abstinência se impõe, a lógica dasobrevivência química fala mais alto. O resultado costuma ser previsível: abandonodo trabalho, faltas recorrentes, desaparecimentos durante o expediente ouconflitos constantes com o empregador. Não por maldade, mas por incapacidadeobjetiva de sustentar uma rotina minimamente funcional.
Esse é umdado tão conhecido que os próprios programas revelam sua fragilidade semperceber. Quase sempre anunciam com entusiasmo quantas pessoas foramcontratadas. Raramente informam quantas permaneceram empregadas após um ou doismeses. Não é descuido estatístico. É porque os números não ajudam a narrativa.
Ainda assim,essas iniciativas continuam sendo defendidas com fervor. E aqui entra o fatordecisivo: conveniência política.
Dar empregopara moradores de rua é uma solução que não gera desgaste. Ao contrário, geramanchetes positivas, fotos emocionadas e discursos edificantes. É o tipo depolítica que produz capital simbólico imediato. Já enfrentar a dependênciaquímica exige decisões duras, debates impopulares e enfrentamento direto detabus ideológicos. Exige internação, disciplina, coerção legal em certos casose enfrentamento do discurso romantizado sobre drogas. Tudo o que um políticoavesso a riscos eleitorais prefere evitar.
Na lógica dapolítica de curto prazo, vale mais parecer que se está fazendo algo do quefazer o que realmente funciona. Afinal, a próxima eleição vem antes dosresultados de longo prazo. E quem sabe quem será o prefeito daqui a algunsanos? Por que assumir o ônus político de medidas difíceis se é possível apostarem soluções que comovem e rendem aplausos imediatos?
O resultado éperverso. Ao oferecer respostas simbólicas, adiamos as respostas necessárias.Ao insistir em políticas que ignoram o diagnóstico correto, afastamo-nos aindamais da possibilidade de cura.
Esseraciocínio foi exposto com brutal clareza por Theodore Dalrymple, psiquiatra eensaísta britânico que trabalhou por décadas com dependentes químicos,criminosos e moradores de rua. Em um de seus textos mais citados, ele afirma:“O sentimentalismo é a indulgência emocional que substitui o pensamento sério”.Dalrymple mostra que políticas públicas guiadas pela emoção, e não pelarealidade, produzem exatamente o oposto do que prometem.
Para ele, arecusa em nomear o problema é parte do próprio problema. Ao negar acentralidade da dependência química, criam-se políticas que tratam sintomasperiféricos e ignoram a doença. É como oferecer uma bengala a quem precisa decirurgia. A intenção pode ser boa, mas o resultado, salvo raríssimas exceções,é inócuo.
Nada dissosignifica desprezo ou falta de compaixão. Pelo contrário. Levar o problema asério é o primeiro gesto de respeito verdadeiro com quem vive nas ruas e com asociedade que convive diariamente com as consequências desse fracasso coletivo.
Enquantoinsistirmos em confundir emoção com eficácia, seguiremos multiplicandoprogramas bem-intencionados e colhendo resultados pífios. Boas intenções nãobastam. Sem diagnóstico correto, não há tratamento possível. E longe dodiagnóstico, os remédios errados continuarão sendo aplicados, com custo humano,social e moral cada vez maior.
- Bruno Souza, empresário e Mestreem Sociologia Política (UFSC). Foi secretário municipal de AssistênciaSocial de Florianópolis (SC), deputado estadual (2019-2023) e vereador nacapital catarinense (2017-2019)



COMENTÁRIOS